Videoclipes que contam histórias ou videoclipes filmes?

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Rodrigo Oliva : Doutor em Comunicação e Linguagens (Universidade Tuiuti do Paraná), Professor de Linguagem Audiovisual (Universidade Paranaense), Autor do livro: Por uma estética da hiperestilização.

Venho desenvolvendo uma pesquisa que busca entender como se organizam as questões da ordem narrativa em videoclipes. Vários estudos apontam que um dos componentes principais que caracterizam a linguagem do videoclipe é a fragmentação e, por conseguinte, uma intenção narrativa, ou narrativa a ser completada. Arlindo Machado e Carol Vernallis, as melhores referências sobre este assunto o estudos contemporâneos, discutem esses apontamentos.

Em minha pesquisa de doutorado, busquei compreender e problematizar alguns aspectos que me interessam nos estudos desta linguagem, principalmente no diálogo e trânsito traçado com a linguagem do cinema. Penso que as narrativas em videoclipes, que ficavam extremamente presas ao fluxo da linguagem da televisiva, ganhou novos contornos com a possibilidade transmidiática, no universo da linguagem da internet.

Vemos hoje uma assinatura diferente dos moldes clássicos da linguagem do videoclipe quando da projeção via MTV. Assinam-se videoclipes como se fossem filmes, dando créditos à diretores, atores, artistas e promovendo um arsenal de estratégias narrativas como, por exemplo, a inserção de diálogos, personagens, situações dramáticas, bem ao estilo cinematográfico. O tempo da música não é mais o tempo de organização de um videoclipe.

Essas novas articulações são provocativas, pois faz com que o pensamento sobre a linguagem mude. Na minha opinião, a própria definição do que seria um videoclipe acaba se misturando a noção de um filme. Experiências como o filme clipe Trópico, da cantora Lana del rei, já apontavam para essa nova caracterização. Hoje, algumas bandas buscam desenvolver clipes para várias faixas de seu álbum, que numa perspectiva maior se misturam e viram filmes, cito o curta The ballad of Cleopatra, da banda The Lumineers.

Gostaria de referenciar uma obra recente brasileira, o videoclipe da canção Flutua do artista Johnny Wooker. Fiquei absolutamente empolgado quando assisti esta produção, pois ela se adequa a uma proposta de estudo que venho desenvolvendo,

principalmente no que toca a narrativa nos videoclipes. Dirigido por Ricardo Spencer, o videoclipe se molda a partir dos componentes clássicos da linguagem, performance do cantor separada das performance dos personagens que criam uma situação dramática a parte. Me atenho a um momento específico do videoclipe, e remeto a um diálogo que venho traçando teórico com o a ideia de produção de presença do autor Hans Ulrich Gumbrecht (um momento epifânico da artimanha narrativa do videoclipe). A música deixa de tocar, e evidencia a performance dos dois personagens principais. Em seguida, num ato de violência, um grupo ataca um dos protagonistas com violência. Esta pausa na canção é carregada de sentido e apresenta um outro status para a linguagem do videoclipe se aproximando das convenções clássicas da linguagem cinematográfica.

Portanto, verifico que a linguagem do videoclipe absorve estes elementos estéticos, que são recriados e, poeticamente, produzem uma série de efeitos. Hoje, o contar histórias é o que rege as produções audiovisuais em seus variados formatos. Antes, o videoclipe se centrava numa ideia de fragmentação que já não se consolida mais. A variedade de propostas narrativas promovidas promovem uma complexidade na própria definição do gênero audiovisual: é filme? ou é videoclipe? ou são filmes clipes? São questões para que possamos pensar sobre o estatuto das imagens na contemporaneidade.

SOBRE A PESQUISA

O site telerrecriação trata da pesquisa da Profa. Dra. Adriana Pierre Coca que investiga os aspectos teóricos e metodológicos das rupturas e reconfigurações de sentidos na teledramaturgia brasileira.

Contato

Adriana Pierre Coca
E-mail: pierrecoca@hotmail.com