As regularidades da cenografia na TV

Por Adriana Pierre Coca | 26 MAR 2018

Somos cônscios de que toda obra audiovisual parte de um conceito-guia. O cenário, o figurino e os objetos de cena devem contar uma história, auxiliando na composição narrativa, a partir dessa compreensão se delineiam as diretrizes da composição da mise-en-scène, sempre a favor da expressividade da ação dramática. No entanto, esse modo de criação não significa que a reprodução do real seja sempre a única orientação a seguir.

Sobre as regularidades em relação à cenografia, importante saber que, segundo Cardoso o cenário televisual assume as mesmas atribuições que o cenário do teatro. São elas: “(1) cooperar com a configuração do espaço cênico [...]; (2) auxiliar na evolução do ator e apresentador em cena; [...](3) atuar como elemento de significação que, na articulação sincrética com os outros elementos da cena, transmite ao telespectador uma mensagem” (2009, p. 25).

Desse modo, a cenografia rasteiramente pode ser definida como o ato de conceber um cenário, contudo uma cenografia coerente com a sua respectiva produção participa organicamente do programa de TV. Na ficção seriada trata-se, sem dúvida, de um componente-chave da narrativa. Logo, a cenografia deve ser pensada para facilitar a movimentação, a fala e até mesmo os pequenos gestos dos atores, bem como estar relacionada às personagens – essa é a chamada cenografia viva, aquela que está dotada de significação, que funciona como um dos textos da encenação.

Cardoso (2009) distingue dois tipos de cenários televisuais: os cenários naturais, que são as locações, que normalmente exigem pouca interferência e representam um custo mais alto na produção devido ao deslocamento da equipe técnica e do elenco; e os cenários construídos, específicos para cada cena em estúdio ou cidade cenográfica. “Observando a produção cenográfica na televisão nos dias de hoje, pode-se afirmar, sem risco de erro, que [...] há na maioria dos gêneros, um predomínio pelo espaço construído, em virtude do custo e da agilidade no processo de produção [...]” (CARDOSO, 2009, p. 25). A escolha de uma locação tem tanta importância para uma história quanto a construção de um cenário, isto é, ela nunca é arbitrária.

Visto que nas teleficções, as personagens costumam ser apresentadas a partir das suas ambientações, por isso os cenários são captados em Planos Gerais e Conjunto nas primeiras cenas, sendo que imagens de locações são encadeadas como um recurso que tecnicamente leva o nome de Stock Shot, isto é, antes de mudar de núcleo dramático em uma narrativa, uma sequência de imagens externas situa o espectador no tempo e no espaço.

A ideia dominante que pauta grande parte das produções da teledramaturgia é a incessante busca pela fidelidade ao real, preocupação que sempre norteou a cenografia da TV Globo, referencia na produção de teledramaturgia.

Em relação aos modos de se produzir a cenografia na dramaturgia de TV, alguns padrões também se estabeleceram ao longo do tempo: o processo é sempre acelerado; a construção não se dá na ordem da narrativa; em uma telenovela, as gravações sempre se iniciam pelas externas, porque os estúdios ainda estão ocupados com a novela que está no ar e os cenários demoram a ficar prontos; a edição, portanto, é realizada de forma fragmentada (CARDOSO, 2009; FILHO, 2003).

Cardoso (2009) nota que, como se trata de um esquema industrial, não é raro percebermos os mesmos modelos de cenários, fachadas, prédios ou imagens de locações em narrativas distintas, e até mesmo cenários de interiores que já foram usados em outras produções e são reaproveitados, com algumas intervenções, é claro. Essa prática não pode ser pensada como um equívoco, mas sim como uma regularidade do texto televisual, um modo de produção, já que existe um banco de locações disponível para ser consultado.

Majoritariamente, a cenografia de uma narrativa ficcional segue alguns principios ou regularidades, que sinteticamente são: 1 - a cada bloco da telenovela, três a cinco núcleos dramáticos são abordados; 2 - o que prevalece é o primeiro plano, que revela, portanto, o cenário em seus detalhes; 3 – os cenários construídos são intercalados com as cenas de locações externas e com cenários virtuais, quando necessário.

Na maior parte das vezes, há um local existente escolhido para rodar a trama, mesmo quando se trata de uma cidade fictícia e 4 - por conta dos altos custos que demanda o deslocamento de equipe para realização de externas, cerca de 70% das cenas são gravadas em estúdio e 30% em locações.

Partindo de Tais percepções acreditamos também que esas regularidades sofrem rupturas de sentidos em muitas produções televisuais. Mas, sobre e as irregularidades em relação à cenografia observadas, vamos discorrer no post seguinte.

REFERÊNCIAS

CARDOSO, J. B. F. Cenário televisivo: linguagens múltiplas fragmentadas. São Paulo: Annablume; Fapesp, 2009.

FILHO, D.. O circo eletrônico: fazendo TV no Brasil. 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003.

SOBRE A PESQUISA

O site telerrecriação trata da pesquisa da Profa. Dra. Adriana Pierre Coca que investiga os aspectos teóricos e metodológicos das rupturas e reconfigurações de sentidos na teledramaturgia brasileira.

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Adriana Pierre Coca
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