A psicologia na TV: o caso de Norman Bates

Por Camila Maestri Esteves | 02 ABR 2018

Personagens complexos e cheios de psicologia vêm sendo cada vez mais explorados nas telas do cinema e da televisão. Mais do que servir como entretenimento, as obras televisivas são capazes de informar e revelar aspectos intrínsecos por meio de técnicas e estratégias narrativas, convidando o espectador a compreender cada instância da construção da obra e de seus personagens.

Não há dúvidas de que a televisão é um dos principais meios para propagar informação e conhecimento. Pensando nisso e no número de espectadores impactados pela televisão, os filmes e séries tem a capacidade de transmitir uma mensagem rapidamente à milhares de pessoas ao redor do mundo. É interessante ressaltar aqui o quanto as séries e filmes vem contribuindo para informar o grande público sobre diversos assuntos. Neste texto, destacamos a abordagem dada à psicologia nas obras de entretenimento.

A psicologia se caracteriza como a ciência que busca entender e compreender o comportamento humano. Ora, se a televisão cria personagens que se assemelham ao ser humano, estes também são seres psicológicos. O cinema e a televisão vêm explorando cada vez mais a psicologia em suas obras, como exemplo temos os filmes: Cisne Negro (2011), Precisamos Falar Sobre Kevin (2012) e Fragmentado (2017); e as séries: Dexter (2006), Breaking Bad (2008), Mindhunter (2017) e, o foco deste texto, Bates Motel (2013).

Bates Motel se constitui como uma série televisiva que aborda e explora a psicologia do personagem Norman Bates. Trabalhada como um spin-off de Psicose (1960), obra clássica do terror de Alfred Hitchcock, a série nos apresenta um Norman adolescente, ou seja, anterior ao personagem que nos é mostrado no filme. A história do protagonista, na verdade, começa um pouco antes do início da série, quando Norman mata o pai, sem ter conhecimento disso, pois encontra-se sob controle de sua dupla personalidade, e Norma, sua mãe, decide recomeçar a vida em uma nova cidade. Dessa forma, a família chega à cidade de White Pine Bay, se tornando donos de um motel na beira da estrada. Ao longo dos episódios, o espectador conhece melhor a relação entre mãe e filho, até ser apresentado aos distúrbios psicológicos de Norman.

Durante a pesquisa, foram identificados dois distúrbios principais que colaboraram na construção do personagem: o complexo de Édipo e o transtorno dissociativo de identidade (também chamado de TDI). Explicando brevemente, a teoria do complexo de Édipo foi desenvolvida por Freud em 1924 e trata sobre a sexualidade da criança perante as figuras do pai e da mãe. Todas as crianças passam pelo processo e, quando concluído sem falhas, ocorre a identificação da criança com a mãe, caso esta seja menina, ou com o pai, caso este seja menino. Entretanto, quando ocorre uma falha, é possível que a criança se identifique com o sexo oposto. O que ocorre com Norman é que, ao perder seu pai, este se apega muito à mãe e cria uma conexão tão forte com ela, de modo que, mais tarde, o garoto desenvolve dupla personalidade tendo como base a figura feminina. Aqui, então, temos o TDI. O transtorno dissociativo de identidade se define quando o indivíduo possui mais de uma personalidade em si, não havendo limite para as múltiplas personalidades que podem existir num mesmo indivíduo. Como dito anteriormente, a dupla personalidade de Norman acaba se caracterizando como sua mãe, que chamaremos aqui de personalidade-mãe. Dessa forma a construção do personagem fica mais complexa, pois, não estamos tratando apenas de um personagem, mas sim dois que constroem juntos a figura do Norman.

Em se tratando de cenas, é possível perceber algumas estratégias na construção desse personagem. O figurino, os gestos e expressões faciais, os diálogos, o cenário e os movimentos de câmera acabam contribuindo para que o público possa ver e compreender a existência da segunda personalidade. As estratégias que mais se destacam são aquelas que se referem diretamente ao personagem. As roupas são utilizadas de maneira muito significativa nas cenas, apresentando ora Norman vestido de mulher, ora mãe e filho com roupas extremamente parecidas.

 

Os gestos de Norman acabam por evidenciar a existência de um conflito interno entre as personalidades ao mostrar uma tentativa de controle por parte de Norman. Aqui, o que ocorre são mudanças sutis no olhar, no jeito de mexer as mãos e em alguns pontos do rosto que ficam tensionados, mas que podem ser capturadas pela atenção dos espectadores.

Os diálogos são a estratégia mais importante e interessante para entendermos a forte relação entre mãe e filho, mas também entre as duas personalidades existentes em Norman. É comum durante a série haver diálogos nos quais os personagens declaram seu amor, fortalecendo sempre a ideia de que ambos não conseguiriam viver um sem o outro. Tais diálogos são acompanhados por gestos afetuosos que, algumas vezes, faz o espectador questionar se a relação entre os dois é apenas uma questão familiar, visto que Norman ama a mãe de um modo obsessivo e busca protegê-la de qualquer outro homem que possa machucá-la, física ou emocionalmente.

As duas últimas estratégias, mais relacionadas com a construção do contexto e do ambiente da série, trabalham juntas para ressaltar os transtornos psicológicos do personagem. Enquanto o cenário faz uso da iluminação e traz elementos que relembram o passado dos personagens, a câmera brinca com seus movimentos. Considerando que Norman muitas vezes conversa com uma pessoa criada em sua mente, a câmera consegue usar planos diferenciados para mostrar a existência dessa personalidade, como a troca de personagens conforme a mudança de plano e o uso de reflexos. Na cena abaixo é possível perceber algumas das estratégias observadas.

De maneira geral, a série Bates Motel consegue revelar dois transtornos psicológicos pouco conhecidos, principalmente o transtorno dissociativo de identidade. Percebe-se que a construção do protagonista se dá a partir de uma intrincada articulação de detalhes que estão presentes não apenas na produção em si, mas também na sua pré e pós-produção, e que são capazes de revelar ao público um terceiro personagem importante na série: a personalidade-mãe. A complexidade de Norman fica evidente ao espectador, que vai ficando cada vez mais imerso na narrativa e, através de todas essas particularidades do personagem, temos uma obra intrigante e extremamente rica para os estudos sobre televisão.

 

SOBRE A PESQUISA

O site telerrecriação trata da pesquisa da Profa. Dra. Adriana Pierre Coca que investiga os aspectos teóricos e metodológicos das rupturas e reconfigurações de sentidos na teledramaturgia brasileira.

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Adriana Pierre Coca
E-mail: pierrecoca@hotmail.com