Irregularidades cenográficas em Hoje é dia de Maria

Por Adriana P. Coca | 09 ABR 2018

A discussão deste post traz resultados de uma pesquisa que buscou identificar não o que se repete / preserva em relação à cenografia das histórias de ficção narradas na televisão, mas sim o que se distancia disso, o que se mostra irregular. Sobre as regularidades cenográficas, consulte post anterior publicado há duas semanas nesse Blog.

Segundo Lotman (2003), a linguagem, que assume uma função comunicativa ao transportar uma informação por meio do texto, além dessa, também pode ter a função criativa. A linguagem apresenta, ainda, uma terceira função, que está vinculada à memória da cultura e que reflete um passado cultural – enraizada, portanto, pela memória de textos que formam a história da cultura humana. Lotman (2003) explica que o texto se configura como um complexo dispositivo composto por vários códigos e é gerador de significados.

Dessa maneira, o texto abriga a interação de múltiplos sistemas semióticos, bem como a contradição e a indefinição de sentidos. Nessa via, entendemos que as produções televisuais, por sua natureza intrínseca, são textos comunicativos e podem ser criativos, além de terem uma função informativa e mnemônica. Podemos então pensar que todo texto audiovisual se constitui como uma amálgama de vários outros textos que, conforme reflete Lotman (2003), também vem impregnado de memórias, de conjuntos de signos em relação que produzem significados. Portanto, a linguagem da televisão é um sistema semiótico complexo que se cruza e se forma a partir de um conjunto de textos que abarca códigos distintos, tais como o sonoro e o visual.

O código deve ser entendido como “o vocabulário mínimo da cultura, sempre em movimento” (MACHADO, 2003, p. 156) – cada texto cultural detém uma unidade de códigos específicos que estão engendrados no movimento da cultura. Daí é possível dizer que os códigos culturais funcionam, de alguma forma, como reguladores. São os códigos que asseguram certa regularidade na transmissão da informação de um sistema cultural para outro. No entanto, os sistemas estão sujeitos à atualização, que pode se dar ou por transformações graduais ou por rupturas mais drásticas em relação aos códigos já conhecidos, nomeados por Lotman (1999) de explosão semiótica.

A partir desses conceitos e das percepções sobre as mudanças na produção da ficção televisual brasileira buscamos compreender os processos de rupturas e reconfigurações de sentidos nas produções de teledramaturgia do autor e diretor Luiz Fernando Carvalho (LFC).

O estudo privilegiou as produções que tiveram o roteiro final e a direção assinados por LFC, por entendermos que propunham mais elementos irregulares à teledramaturgia canônica. Carvalho trabalhou na TV Globo por mais de duas décadas e assina a direção de dezenas de obras. Nessa breve exposição, trazemos nossas percepções sobre as rupturas e reconfigurações de sentidos em relação à cenografia das duas temporadas da microssérie Hoje é dia de Maria (2005), a primeira obra televisual assinada e dirigida por ele na TV.

 

Hoje é dia de Maria foi rodada no cenário circular de um domo, que foi palco dos shows do Rock in Rio III. O trabalho é composto de referências diversas, a circularidade da cúpula que serviu de estúdio assumiu a função de um cenário vivo, como nos explicou Daniel Filho (2003), aquele em sintonia com a narrativa, e talvez possamos pensá-lo quase como uma personagem que integra o texto televisual, já que traz em si informações imprescindíveis para desenrolar a história, como as imagens-cenários pintadas à mão que faziam as vezes de locações “reais”.

Quando questionado: “Por que você decidiu usar um domo em vez de um estúdio tradicional?”, a resposta de LFC foi:

A idéia de trabalhar em um espaço que não fosse a realidade em si, mas que a constituísse como sendo a representação emocional de uma determinada realidade, assim como os sonhos, sempre me interessou. Não estou trabalhando com a mentira. [...] Muito ao contrário, estou propondo aos espectadores um jogo com a imaginação, um exercício tênue de visibilidades. Cabe, isto sim, à grande capacidade imaginativa dos intérpretes de pegar na mão do espectador e trazê-lo para dentro do jogo (HOJE, 2005, p. S/N).

A proposição de Carvalho parece se aproximar da noção do texto artístico de Lotman, que enfatiza a sua natureza dual (dialéctica), que

por um lado, o texto simula a mesma realidade, se finge de uma coisa entre as coisas do mundo real, com uma existência autônoma, independente do autor. Por outro lado, constantemente nos recorda o fato de ser a criação de alguém e de significar algo. Nesta dupla interpretação surge o jogo, no campo semântico, entre ‘realidade e ficção’ (LOTMAN, 1999, p. 105).

A redoma onde é contada a narrativa de Maria (Carolina Oliveira/Letícia Sabatella) representa em si a circularidade da história da protagonista, que tem a sua infância roubada pelo diabo após deixar seu lugar de origem e se enveredar numa busca até as franjas do mar. Ela retorna para casa depois de muitas aventuras e desventuras pela Terra do Sol a Pino – essa é sua trajetória na primeira temporada, também chamada de “jornada” pelos realizadores.

Na segunda jornada, é nas andanças por uma cidade caótica que Maria se desvia de casa e depois a reencontra: como numa mandala que começa e termina no mesmo ponto, a protagonista traça seu caminho. Lia Renha, diretora de arte da microssérie, foi quem sugeriu à direção o estúdio circular. Renha explica: “Quando vemos uma paisagem a enxergamos em 360º. Quando se entra dentro desse domo, não se está dentro de um mundo recriado. Eu não conseguiria contar essa história como eu sinto fora de um círculo; não vemos o mundo com quinas.” (in COSTA, 2005, p. S/N).

No domo de Hoje é dia de Maria foi instalado um ciclorama, tecido que fez as vezes do fundo infinito, que é como são moldados os estúdios de TV. Essa “tela” de tecido era pintada constantemente com diferentes paisagens-cenários pela equipe do artista plástico Clécio Régis. Esses cenários eram misturados a outros em três dimensões, como é o caso do casebre onde morava Maria e seu Pai (Osmar Prado), no sítio da família.

Nesse cenário, manteve-se o chão de terra do terreno onde foi montada a cúpula, e a esse piso foram adicionados areia, pedras, plantas e até um rio artificial. Esses aspectos sinalizam o quanto essa construção tecnicamente também representou um desafio e uma ruptura no saber-fazer teledramaturgia. Tal amplitude facilitou, consequentemente, a instalação e a operação de gruas, algo que em um estúdio convencional exige mais cuidado.

No que concerne à percepção desse tipo de cenário no texto final, as rupturas de sentidos são evidentes quando identificamos as pinturas como cenários de fundo e a união entre as construções tridimensionais e bidimensionais. É possível que a extensão do estúdio em 360 graus não seja tão explícita, mas as descontinuidades são intensas para os aspectos de produção, criação cenográfica e captação de cenas.

Os materiais usados na concepção dos trajes e dos objetos de cena de Hoje é dia de Maria também foram imprescindíveis na composição dos cenários da microssérie. Segundo informações do site Memória Globo, todos os objetos usados na produção foram envelhecidos para ficarem adequados à proposta estética da trama. A maior parte desses objetos de cena foi produzida com material reciclado ou reaproveitada do acervo da emissora. A equipe de figurino, por exemplo, se propôs a recriar as peças a partir de outras já aposentadas. Tudo isso para seguir o conceito-guia para a cenografia, que foi o de utilizar técnicas e materiais não-tradicionais.

Em sintonia com essa proposta, foi colocado em prática outro aspecto da cenografia que nos inquieta, que é a manipulação do cenário pelos próprios atores. Fora a manipulação das marionetes que fizeram o papel dos animais em cena, muitas vezes visíveis, em alguns momentos os intérpretes se movimentam e interagem com o cenário. É o caso da oscilação dos tecidos que representam as ondas do mar, movimentados por máquinas manuseadas pelos próprios atores.

O que soa paradoxal é pensar que obras como essa foram ao ar na TV aberta hegemônica na área, a TV Globo, o que só não é tão difícil compreender quando lembramos que as circunstâncias de exibição seguiram alguns ditames da emissora: foram ao ar tarde da noite; foram amplamente divulgadas; e mesmo nos canais de televisão aberta é de “bom tom” dar espaço, de tempos em tempos, para experimentações desse nível, com alto grau de ousadia.

Em geral, dedica-se uma parcela da grade à renovação dos formatos e à atualização dos programas, mas, ao que parece, com uma “margem de segurança” maior do que houve no caso da obra televisual observada nesta pesquisa.

É por isso que apontamos tais aspectos como rupturas de sentidos, pensando que nesses casos há uma vasta incongruência em relação ao que é costumeiramente realizado, nos parece que os aspectos levantados em relação à cenografia de Hoje é dia de Maria podem ser pensados inclusive como as explosões semióticas, definidas por Lotman (1999).

 

Referências

CARDOSO, J. B. F. Cenário televisivo: linguagens múltiplas fragmentadas. São Paulo: Annablume; Fapesp, 2009.

COSTA, A. C.. Refinado e popular: Hoje é dia de Maria reaproveita matéria prima para retratar o mundo dos contos populares. Revista Luz e Cena. Edição 67, Jan/Fev de 2005.

FILHO, D.. O circo eletrônico: fazendo TV no Brasil. 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003.

HOJE é dia de Maria: Segunda Jornada. Direção de Luiz Fernando Carvalho. Intérpretes: Carolina Oliveira, Daniel de Oliveira, Fernanda Montenegro, Laura Cardoso, Letícia Sabatella, Maria Clara Fernandez, Osmar Prado, Rodrigo Santoro, Stênio Garcia, Tadeu Mello e Outros. Autoria: Luiz Fernando Carvalho e Luís Alberto de Abreu. Música: Tim Rescala. Rio de Janeiro: Central Globo de Produção, 2005. 5 capítulos, son., color. Microssérie.

LOTMAN, I. M. A estrutura do texto artístico. Lisboa: Editorial Estampa, 1978.

________. Cultura y explosión. Lo previsible y lo imprevisible en los procesos de cambio social. Barcelona: Gedisa, 1999.

________________. “Sobre el concepto contemporâneo de texto”. Entretextos. n. 2, nov. Granada, 2003. Acesso: http://www.ugr.es/~mcaceres/entretextos/pdf/entre2/lotman.pdf , em 01 ago. 2014, 21:30.

MACHADO, I.. Escola de semiótica – a experiência de Tártu-Moscou para o estudo da cultura. São Paulo: Ateliê Editorial/FAPESP, 2003.

SOBRE A PESQUISA

O site telerrecriação trata da pesquisa da Profa. Dra. Adriana Pierre Coca que investiga os aspectos teóricos e metodológicos das rupturas e reconfigurações de sentidos na teledramaturgia brasileira.

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Adriana Pierre Coca
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