Un cuento chino, uma narrativa contada em fait divers

Por Adriana P. Coca | 16 ABR 2018

Este post reflete sobre como os fait divers foram usados como suporte para a construção narrativa do filme Un Cuento Chino (2011). Os fait divers nascem na imprensa popular francesa do século XIX e estão associados às temáticas sensacionalistas, como bizarrices, escândalos e casos policiais, fatos assim amarram toda a história do longa-metragem.

No século XIX, a imprensa popular francesa estampava nos jornais notícias extraordinárias geralmente entre os folhetins e isso era garantia de boas vendas. O público feminino era o principal consumidor desse tipo de “literatura”.

Notícia romanceada conhecida como fait divers é um gênero informativo, próximo à chamada Nouvelle ou Chronique, a crônica de jornais. Para os americanos essas notícias levam o nome de feature e para os espanhóis sucesso (SODRÉ, 2009, p.78). É comum ouvirmos falar da crônica dos fait divers ou apenas fait divers. É um termo francês introduzido por Roland Barthes, no texto Structure du Fait-Divers, em português, Casos do Dia do livro Essais Critiques (Ensaios Críticos) de 1964. Alguns autores usam a tradução – fatos, assuntos ou casos diversos, mas não há tradução satisfatória, por isso para evitar reducionismo ou diferenças de significação convém usar sempre a grafia original em francês. O autor dá a seguinte definição:

(...) uma informação total, ou mais exatamente imanente; ela contém em si o seu saber; não é preciso conhecer nada para consumir um fait divers, ele não remete formalmente a nada além dele próprio, evidentemente o seu conteúdo não é estranho ao mundo: desastres, raptos, agressões, acidentes, roubos, esquisitices, tudo isso remete ao homem, à sua história, à sua alienação, a seus fantasmas, a seus sonhos, a seus medos. (BARTHES, 2009, p.216).

Esse tipo de notícia tem como essência a busca pelo extraordinário e o filme argentino Un Cuento Chino (Um conto chinês, em português)tem sua construção narrativa ancorada nos fait divers, seu diretor e roteirista Sebastián Borensztein soube garantir o tom trágico-cômico aliado a um olhar sensível sobre as relações humanas e nesse aspecto conseguiu contar uma história calcada no absurdo de maneira delicada.

Un Cuento Chino começa com um autêntico fait divers, uma vaca cai do céue atinge um barco que navega nas águas calmas de um lago na província chinesa de Funcheng, no exato momento em que Jun (interpretado por Huang Sheng Huang), um rapaz de 25 anos se prepara para pedir a namorada em casamento, metade do barco desaparece junto com a moça e o noivo desesperado grita à sua procura. Sem sabermos por que o animal desabou do céu, acompanhamos a história se deslocar para a capital argentina. Chegamos à Buenos Aires e nos deparamos com uma imagem invertida que lentamente vai tomando a posição normal e a câmera desliza em um belíssimo travelling que atravessa a rua e passa dentro de um parafuso adesivado/desenhado na porta de uma casa de ferragens e somos, então, apresentados a Roberto (Ricardo Darín), personagem cheio de manias, rabugento e que entre suas coleções, gosta de guardar recortes de jornais com notícias incríveis.

O que poucos espectadores sabem é que o filme é inspirado em uma história real, a situação aparentemente impossível de acontecer, que dá início ao longa-metragem. A notícia que inspirou Un Cuento Chino nasce das páginas dos jornais e noticiários televisivos de abril de 2008, teria acontecido meses antes no final de 2007, trata-se do insólito relato de pescadores japoneses que foram resgatados por uma embarcação russa e como consta em relatórios oficiais, isso teria acontecido porque soldados russos roubavam gado, que era transportado com aviões de carga e em uma dessas tentativas de roubo, os animais teriam ficado fora de controle durante o vôo. Com receio do gado raivoso provocar um acidente aéreo, os soldados decidiram jogar os animais no ar, ou melhor, no mar e, por azar dos japoneses, os animais foram parar em cima da embarcação deles.

É esse acontecimento que dá início a narrativa ficcional e que une o jovem chinês Jun, que desconhece qualquer palavra em espanhol, e o mal-humorado Roberto que não entende nada em chinês. Ambos têm suas vidas unidas e transformadas com esse encontro. Jun, depois da tragédia que provoca a morte prematura de sua namorada, deixa a China rumo à Argentina atrás do seu único parente vivo, o tio mais velho que é irmão do seu pai, é assaltado e jogado de um táxi aos pés de Roberto, mas as relações com a narrativa dos fait divers não se esgotam por aí e como isso vai aparecendo no filme é a discussão central desse post.

Os fait divers apresentam características bem definidas, por exemplo, um fato narrado como fait divers dispensa o contexto da informação para ser entendido e isso o diferencia da construção de qualquer outra notícia (BARTHES, 2009, p.216). Sodré corrobora com essa afirmação quando explica que os fait divers são “(...) uma micronarrativa fechada sobre si mesma, mobilizadora da ideia de destino (ao invés de história) e intemporal, no sentido que pode despertar o interesse do leitor em qualquer época.” (SODRÉ, 2009, p.79). Em relação a esse aspecto da informação que contém em si o seu saber. Michel Foucault acrescenta que “de outra parte, é preciso que todas estas listas de acontecimentos - apesar da sua frequência e sua monotonia – apareçam como singulares, curiosas, extraordinárias, únicas ou quase, na memória dos homens.” (FOUCAULT, 1973, p.269).

A notícia real que inspira o roteiro de Un Cuento Chino se enquadra nessas características discutidas pelos autores, assim como as notícias colecionadas pelo protagonista Roberto, quando ele é questionado por Jun sobre o que tanto procura nos jornais, ele responde: “Gosto de colecionar coisas, eu coleciono notícias incríveis, notícias absurdas.” E Jun curioso quer saber o que o levou a ter uma coleção dessas, Roberto hesita em responder, se levanta e vai buscar uma de suas pastas de fait divers. E conta a história de seu pai, diz que ele como imigrante italiano gostava de ler jornais da Itália e em 20 de abril de 1982, o periódico L´Unitá trazia a seguinte notícia: “A Argentina está em guerra com a Inglaterra” e que desta vez, infelizmente, seu pai não guardou esse recorte pelo título em si que é um absurdo, mas pelo fato de ter seu filho com uma metralhadora na mão fotografado na página. O pai que havia fugido da guerra se deparava mais uma vez diante dela. A cena segue em flashback e revela a vivência e olhar de Roberto sobre a guerra, até sua volta para casa e a descoberta que no dia da publicação daquela notícia, o pai dele ficou tão chocado com aquela imagem que recortou o jornal, foi dormir e nunca mais acordou.

Nesta cena, uma frase de Roberto resume o fio condutor da narrativa e traduz como nosso protagonista encara a vida, ele afirma: “A vida não faz sentido nenhum, é um absurdo.” Isso só confirma a minha tese, diz ele. Mas, Jun o contrapõe afirmando que para ele tudo faz sentido. Essa é uma das cenas-chave da história, nela descobrimos porque Roberto é tão inacessível, embora tenha atitudes de um bom homem, como a de acolher Jun, um desconhecido oriental que sequer fala sua língua. Seguimos com ele se questionando: Será que ele tem razão? E nesse momento, começa a ler algumas notícias da sua coleção de matérias extraordinárias, exemplos claros de fait divers, enquanto o entregador de comida chinesa traduz seus relatos para Jun.

Roberto: Tá aqui, olha. Esperou dois anos pelo transplante de coração, a operação foi um sucesso, mas ao ser conduzido para casa a ambulância bateu. A esposa, o enfermeiro e o motorista saíram ilesos, o sujeito morreu na hora. Tá cheio, olha essa aqui, essa é do seu país. É incrível. Província de Funcheg. Vaca cai do céu e provoca uma tragédia. Ladrões de gado utilizam avião cargueiro para roubar animais, um grupo de camponeses armados enfrenta os ladrões. Então, que sentido tem isso?

O flashback dessa vez é de Jun e traz as imagens que abrem Un Cuento Chino e nos esclarece de onde veio à vaca que provocou o acidente e a morte da namorada dele. Esse momento é quando efetivamente os personagens conhecem a história de vida um do outro.

Para Roland Barthes (2009, p.218) a emoção é o fio condutor da narrativa dos fait divers que sustentam relações de causalidade e coincidência. Para o que classifica como os problemas de causalidade, o autor apresenta dois vieses possíveis: causa perturbada quando temos uma notícia que a justificativa pelo ato noticiado é a menos provável, como o exemplo dado por Barthes (2009, p. 220), criança é sequestrada por uma criada jovem, para exigir um resgate em dinheiro seria a causa mais coerente, mas não ela gostava tanto da criança que decidiu ficar com ela; Causa esperada, nesse aspecto a excepcionalidade do fato se inverte, não é a causa/efeito que chama a atenção, o foco recai sobre os personagens envolvidos, em geral, idosos, crianças, mães. As relações de coincidência (BARTHES, 2009, p.222) também se alicerçam na emoção e se apresentam de duas maneiras: repetição - associada aos casos sem uma explicação razoável ou por Antítese - quando a situação está vinculada a noção de cúmulo - conceito assimilado da tragédia grega e associado às coincidências inexplicáveis, como o fato de uma vaca cair do céu bem em cima da embarcação onde Jun e sua namorada estavam, no exato momento em que ele iria fazer o pedido de casamento.

A temática repetitiva é outra característica marcante. Embora destacados como inéditos, os assuntos são sempre os mesmos, giram em torno de acidentes, catástrofes, mortes, personalidades e do inusitado (BARTHES, 2009, p.216), tão inusitado quanto o fato de surgir diante de você um rapaz chinês que não fala nada da sua língua e isso mudar sua vida pacata vida. Mera coincidência ou não, a repetição é algo inerente à monótona rotina de Roberto que tem seus dias abalados com a chegada do visitante oriental, nós o conhecemos quando realiza a repetitiva tarefa de conferir os parafusos que recebe para vender em sua loja e se revolta depois de contar, um por um, e descobrir que dos 350 itens que deveriam se encontrar na caixa, menos de 330 estão lá, é sempre do mesmo jeito que entra em casa, prepara o jantar, lê os jornais e recorta as notícias fantásticas que o interessa, todos os dias na mesma hora, às 11 da noite, desliga a luz e pega no sono, todo sábado, compra flores e leva ao túmulo dos pais. Mas, o acaso, a coincidência vem quebrar esse roteiro de ações coordenadas e mudar a vida dele.

A natureza intrínseca dos fait divers fisga o telespectador pela emoção, com pautas associadas ao espetáculo e ao divertimento, que nos carregam ao mundo da fantasia, do sonho como sinalizado por Barthes (2009, p.216). Nelas, os temas do imaginário coletivo, inerentes a todo ser humano e que também encontramos nas histórias extraordinárias, presentes nos fait divers, aparecem para dar vida ao encontro inusitado de dois homens de culturas distintas que estabelecem uma forçada relação que se converte em amizade, solidariedade e constroem uma narrativa carregada de simbolismos, humor e delicadeza.

O filme é anunciado como sucesso de público por atrair mais de um milhão de espectadores, só na Argentina. O crítico de cinema Diego Lerer do Jornal Clarín tece elogios e críticas:

Darín faz com que o filme vibre, porque quase tudo acontece através de suas reações. Ele realiza uma cena silenciosa na Embaixada da China de maneira genial, por mais que o arremate ‘engraçado’ seja óbvio. Ricardo pode dar humanidade a uma pedra, e isso gera uma corrente de simpatia em relação a um personagem quase insuportável. Não é um filme brilhante e baseia seu humor em confusões algo excessivas, mas realmente entretém e termina conseguindo levar os espectadores a algo parecido à emoção.

Acreditamos que Un Cuento Chino pode despertar algo bem mais do que simpatia ou algum sentimento parecido à emoção, pode nos fornecer inquietações que nos levam a questionar a construção das notícias, podemos olhá-lo sob a ótica dos fait divers que remetem aos fatos incríveis presentes no jornalismo desde o século XIX, pode fazer refletirmos sobre as relações humanas e, sem dúvidas, pode nos fazer rir, mesmo sendo inspirado e contado por meio de pitadas dos mais autênticos fait divers.

 

Referências
BARTHES, Roland. Ensaios Críticos. Lisboa: Edições 70, 2009.
ECO, Umberto. Sobre os Espelhos e outros Ensaios. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989.
FOUCAULT, Michel. Ces meutres qu’on raconte. Moi, Pierre Rivière ayant égorgé ma mére, ma souer et mon frére. Paris: Julliard, 1973.
MARCONDES FILHO, Ciro (org.). Dicionário da Comunicação. São Paulo: Paulus, 2009.
SODRÉ, Muniz. A Narração do Fato: Notas para uma teoria do acontecimento. Petrópolis/ RJ: Vozes, 2009.

Vaca voadora afunda barco japonês. Disponível em: www.mdig.com.br/index.php?itemid=2742  Acesso: 14 abr. 2018, às 14h06.

SOBRE A PESQUISA

O site telerrecriação trata da pesquisa da Profa. Dra. Adriana Pierre Coca que investiga os aspectos teóricos e metodológicos das rupturas e reconfigurações de sentidos na teledramaturgia brasileira.

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