A perspectiva cartográfica e a pesquisa em comunicação

Por Adriana P. Coca | 23 ABR 2018

A cartografia está associada ao pensamento pós-estruturalista e é uma perspectiva metodológica recente que pode ser compreendida como metodologia, método ou procedimento metodológico, dependendo do uso, da intenção de quem pesquisa e da dimensão que ela ocupa no processo.

Não pressupõe um método rígido, pelo contrário, irá sugerir “[u]m trilhar metodológico que visa a construir um mapa (nunca acabado) do objeto de estudo, a partir do olhar atento e das percepções e observações do pesquisador, que são únicas e particulares, que serão cruzadas com a memória do investigador.” (ROSÁRIO, 2008, p. 207).

Deleuze e Guattari (1995) apontam a cartografia como um dos princípios do rizoma, que apresenta as seguintes características (que são nomeadas “princípios”): conexão, heterogeneidade, multiplicidade, ruptura a-significante e cartografia.

Entendemos que é importante trazer aspectos da noção de rizoma para que se possa imergir em aspectos que também são integrantes da cartografia. O princípio da conexão sinaliza que o rizoma pode ser ligado em qualquer ponto. No rizoma não há uma hierarquia (com início, meio e fim), mas sempre um meio, ou seja, ele cresce em qualquer direção, por todos os lados. Toda pesquisa, a nosso ver, se constitui em linhas rizomáticas que vão, de acordo com o percurso de cada pesquisador, do teórico ao empírico e/ou de volta ao teórico e a outros percursos. Do mesmo modo, os resultados se configuram nesse caos de linhas que vão se compondo na trajetória investigativa e que oferecem, assim, um mapa para a leitura dos vieses encontrados para a problemática.

O princípio da heterogeneidade, em sintonia com o anterior, indica que existem diferentes possibilidades de conexões. É justamente isso que faz cada pesquisa tão única e cada percurso tão afetado pelas pegadas do pesquisador que sintoniza tais conexões de acordo com a sua bagagem e o modo como organiza as entradas e saídas do rizoma. O princípio da multiplicidade reforça a importância da diversidade de elementos que a construção rizomática proporciona: a multiplicidade rompe com o dualismo e a binariedade, propondo observar os elementos também por meio das suas singularidades e relações, que são os seus devires (DELEUZE; GUATTARI, 1995).

O deslocamento do rizoma acontece por meio de suas linhas, conexões e rupturas, e o quarto princípio da ruptura a-significante é aquele que assegura essa característica movente do rizoma, afirmando que ele pode ser rompido em qualquer ponto, com maior ou menor intensidade. Rupturas estas às vezes esperadas, outras imprevisíveis, que são chamadas de linhas de fuga e que podem operar na condução de novas criações.

O quinto princípio é o da cartografia e está diretamente vinculado ao rizoma, que se desdobra nesse mapa construído a partir de múltiplas conexões e entradas (DELEUZE; GUATTARI, 1995). Desde a publicação de Mil Platôs I,a cartografia começou a ser aplicada como um método e/ou procedimento de pesquisa no Brasil, sobretudo nas áreas da Psicologia e da Educação. Nas pesquisas de comunicação ainda é pouco utilizada e se apresenta por vieses distintos, conforme observa Aguiar (2011). Nota-se que há trabalhos em que a cartografia se configura apenas como um mapeamento, um modo de levantar os dados ou realizar a pesquisa exploratória; outros pesquisadores assumem a cartografia só quando apresentam os resultados, como uma maneira de organizar as informações reunidas ao longo da investigação; há quem faça uso da cartografia como procedimento metodológico para análise do corpus; e finalmente há aqueles que a aplicam para a coleta de dados de coletivos humanos (ROSÁRIO, 2016a).

Importa considerarmos que a cartografia pode ser um modo de pensar a comunicação, e talvez essa seja uma das suas maiores contribuições ao campo e também um obstáculo – instigante, sem dúvida – a quem se propõe a utilizá-la em sua investigação. É desafiador para o pesquisador cartografar, construir o seu próprio mapa/rizoma – um mapa que está em constante movimento, já que a cartografia não oferece regras definidas, um pré-roteiro ou um método estabelecido de trabalho. Kastrup salienta que “cartografar é acompanhar um processo, e não representar um objeto” (2008, p. 469). Como destaca Deleuze e Guattari, esse mapa/rizoma se difere de qualquer decalque, e não oferece, portanto, uma forma estanque de trabalho: “O mapa é aberto, é conectável em todas as suas dimensões, reversível, suscetível de receber modificações constantemente” (1995, p. 22).

Rolnik acredita que a cartografia é um método que permite, a partir desse mapa, “detectar a paisagem, seus acidentes, suas mutações e, ao mesmo tempo, criar vias de passagem através deles” (1989, p. 6). Nessa via, é fundamental compreender que esse mapa mutável é afetado por paisagens psicossociais e que o cartógrafo é um pesquisador com o corpo vibrátil, ou seja, que pode ser afetado pelas sensibilidades coletivas e pelos movimentos sociais (ROLNIK, 1989; 2006). E, nesse sentido, a cartografia (sendo um mapa em constante atualização) pode revelar diferentes cenários sociais, trocas simbólicas ou mesmo fluxos comunicacionais, não podendo, por isso, seguir protocolos normalizados. “Como se propõe à criação/invenção, a cartografia encaminha-se sempre para a produção da diferença e para uma nova maneira de adquirir conhecimento” (ROSÁRIO, 2008, p. 210). Tais colocações indicam que fazer uma cartografia é olhar para o objeto de estudo observando as suas repetições e, mais atentamente, as suas irregularidades. Quando falamos em “mapa movente”, significa que o planejamento da pesquisa está sujeito a permanente alteração, tendo em conta que não se trata de um planejamento de modo cartesiano, pois são de fato indicativos que nos movem e que vão se constituindo ao longo da pesquisa.

Como metáfora, nos remetemos a outra associação que nos leva a compreender melhor a ação (movimento) da pesquisa cartográfica, que é a herança que vem da geografia.  É dessa área, por sinal, que surge o termo cartografia, que na tradução do latim quer dizer carta escrita (charta, que significa carta; grafh,que significa escrever). O trabalho do registro das topologias do solo do cartógrafo/geógrafo é parecido com o processo cartográfico do cartógrafo/pesquisador: ambos passam pela observação detalhada do ambiente/território que querem investigar, exploram caminhos que se bifurcam em busca das diferenças, averiguam as formas que se repetem e as que destoam e, por fim, fazem a descrição cuidadosa do lugar, que vive em transformação.

O pesquisador-cartógrafo que desvenda esse terreno movediço e enredado deve estar ciente de que as suas interpretações são apenas um olhar que constrói um mapa/rizoma repleto de irregularidades e conexões. Como nossa experiência pessoal que observa e reflete sobre alguns movimentos da teledramaturgia brasileira, sobretudo os deslocamentos de sentido nesse âmbito, foi como entrar num território bastante conhecido – por conta da vivência profissional que já nos colocava em relação com novelas, séries e seriados para televisão –, mas em busca de algo apenas pressentido e não capturado efetivamente. O território era muito amplo: difícil apreender as suas multiplicidades sem uma atenção especial às materialidades, impossível percorrê-lo sem concentrar-se num panorama. Assim, assumimos a presença da subjetividade, que é outro pressuposto da cartografia – essencial, segundo os estudos de Kastrup (2007; 2008) –, mas de certa forma difícil de realizar com tantas práticas científicas objetivistas que nos são costumeiramente impostas e/ou requeridas.

A cartografia compromete o sujeito com a busca da diferença, ou seja, com a procura de elementos, estratégias, argumentos, linhas de raciocínio que estão pulsando no objeto e que ainda não foram trazidos à tona; aceita as limitações da pesquisa e do pesquisador, sendo que esse consente a existência de outros pontos de vista além do seu. (KASTRUP, 2008, p. 211).

No entanto, Rosário (2008; 2016b) alerta que tal condição não significa que o envolvimento do cartógrafo com o objeto deixa de exigir uma observação cuidadosa e um discernimento do pesquisador, advertindo que – embora na perspectiva cartográfica a ciência não seja generalizante e construída sobre a rigidez – o rigor científico deve ser preservado. O trabalho pode ser atravessado pelos afetos de quem pesquisa, mas precisa apresentar uma condução reflexiva adequada, consistente. Se assim for, no processo da investigação o cartógrafo se transmuta e, ao final do trabalho, atinge um estado outro, caso em que a pesquisa cartográfica terá realizado uma de suas funções, que é a de provocar um deslocamento no próprio cartógrafo-pesquisador. Isso porque terá havido, nessa conexão do sujeito com o objeto, um “compromisso ético e político com a ciência” (ROSÁRIO, 2016b, p.192).

Kastrup esclarece que as subjetividades se compõem por forças desiguais que se formam por vetores “sociais, políticos, tecnológicos, ecológicos, culturais, etc.” (2008, p. 472). Atravessada por esses vetores, a cartografia se constitui na direção contrária dos discursos hegemônicos, incentivando, portanto, a busca pela alteridade.

O que difere nessa construção é que os critérios podem ser mudados no caminho, exatamente porque somos afetados por nossas sensibilidades. Além dos critérios, Rolnik (2006) diz ainda que devemos considerar as regras do fazer cartográfico, que são indispensáveis para definir como será limitada a pesquisa. Um roteiro também é um elemento necessário a ser considerado, sendo que, como já frisado várias vezes neste texto, poderá ser recriado a qualquer instante. Outro elemento que a autora sugere ser levado em conta é o princípio: este apresenta os norteadores do estudo, as suas motivações.

No caso da nossa pesquisa em especial, trata-se da comunicação, sobretudo o audiovisual e particularmente as narrativas seriadas televisuais, o que exigiu compreender as especificidades da linguagem audiovisual, percebendo suas nuances, deslocamentos e sobreposições e, dessa forma, desvendar as diferenças e conexões que compõem uma das cartografias possíveis do nosso objeto. 

Apenas após esses passos foi possível criar os platôs, os estratos e plataformas que unem os pontos distintivos que se conectam a outros e se movem e atualizam. Segundo Deleuze e Guattari (1995), os platôs são zonas de intensidades contínuas atravessadas pelas irregularidades. No caso da problemática da nossa investigação, a construção dos platôs se efetivou pelas irregularidades encontradas em relação à linguagem televisual de ficção, o que nos levou a configurá-los de modo peculiar. Esta pesquisa está disponível para dowload neste site, caso queira saber mais sobre a cartografia ou este estudo.

 

Referências

AGUIAR, Lisiane M. Processualidades da Cartografia nos usos teórico metodológicos de pesquisas em comunicação social. Dissertação de Mestrado. Unisinos (2011). Disponível em: http://www.repositorio.jesuita.org.br/handle/UNISINOS/2997. Acesso em: 20 nov. 2016, 16:26.

DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil Platôs: capitalismo e esquizofrênia. Volume 01. Rio de Janeiro: Editora 34, 1995.

KASTRUP, Virgínia. O funcionamento da atenção no trabalho do cartógrafo. Revista Psicologia & Sociedade. Rio de Janeiro, 2007, p. 15-22. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-71822007000100003 (último acesso: 22/09/2017).

_________. O método da cartografia e os quatro níveis da pesquisa-intervenção. In: Castro, Lúcia Rabello de; Besset, Vera Lopes (orgs.). Pesquisa-intervenção na infância e juventude. 1 ed. Rio de Janeiro: Nau, v.1, 2008, p. 465-489.

ROLNIK, Suely. Cartografia sentimental: transformações contemporâneas do desejo. São Paulo: Estação Liberdade, 1989.

_________. Cartografia sentimental: transformações contemporâneas do desejo. Porto Alegre: Editora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2006.

_________. Cartografia na comunicação: questões de método e desafios metodológicos. Palestra realizada na FABICO/UFRGS no I Colóquio Internacional de Investigação Crítica em Comunicação, em 26 de julho de 2016a.

_________. Cartografia na comunicação: questões de método e desafios metodológicos. In: Lopes, Maria Immacolata Vassallo de; Moura, Cláudia Peixoto de (orgs.). Pesquisa em comunicação: metodologias e práticas acadêmicas. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2016b.

SOBRE A PESQUISA

O site telerrecriação trata da pesquisa da Profa. Dra. Adriana Pierre Coca que investiga os aspectos teóricos e metodológicos das rupturas e reconfigurações de sentidos na teledramaturgia brasileira.

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Adriana Pierre Coca
E-mail: pierrecoca@hotmail.com