CARTOGRAFIAS DA TELEDRAMATURGIA BRASILEIRA: entre rupturas de sentidos e processos de telerrecriação.

Por Adriana P. Coca | 02 mai 2018

“Um livro para quem se interessa pelo mundo televisual e seus meandros ficcionais, mas é também um livro para quem gosta de explorar saberes.”

“De um modo ou de outro, temos que admitir a força dessa mídia que, conforme defende a autora, passou por mudanças na produção e na maneira de consumo que devem ser entendidas como transformações graduais e precisam ser avaliadas para o entendimento do meio. De maneira geral, temos um meio caracterizado por modos convencionais de narrar e construir os seus textos, que opera sobre processos de edição, filmagem, preparação, transmissão e circulação considerando públicos de grande escala e, portanto, uma linguagem muito uniforme.

Não se pode defender, contudo, que a TV não passe por inovações de linguagem – as inovações técnicas são mais óbvias, é claro. Com cuidado e atenção é possível observar como se processam as novas experiências televisuais de emissão aberta em termos de formatos, códigos e linguagens.

A aparente incoerência entre permanência e novidade se dissolve quando as emissoras percebem a necessidade de atualizar-se e revigorar-se para manter e alcançar maior audiência. Deste modo, os processos graduais de transformação televisual as vezes são interrompidos por rupturas de sentido mais drásticas impondo a necessidade de reavaliar os formatos, os códigos e a própria linguagem do meio. Esse cenário leva a duas considerações pelo menos: por um lado as recriações na teleficção podem ser revigorantes e estimulantes, mas por outro lado nem sempre são bem aceitas pelo público.

O pressuposto do estudo é de que há uma desconstrução dos modos tradicionais de contar histórias de ficção seriada na televisão brasileira, no que tange aos formatos estéticos e aos percursos narrativos. O livro vem evocar justamente uma reflexão sobre as rupturas de sentidos mais drásticas que ocorrem na programação da TV – especialmente na ficção seriada da TV Globo – que configuram o que a autora chama de telerrecriação. Ela observa que é preciso ter cuidado para identificar os textos televisuais que apresentam as faces da telerrecriação e que efetivamente propõem novas leituras ou quando são somente um esforço para ser ‘diferente’.

É preciso apontar também que não se trata apenas de um trabalho de pesquisa transformado em livro, a autora tem um cuidado especial com seus leitores, conduzindo-os, orientando-os nos direcionamentos do seu texto, ilustrando seu pensamento por meio de diagramas e construindo uma escrita acessível que, ao mesmo tempo, exige refinamento do leitor. Os títulos que tecem o sumário, de um modo criativo, vão se entrelaçando a partir do processo de produção do televisual: no ar, roteiro em criação, pré-produção, produção, em cena, pós-produzindo.

São nove capítulos bem estruturados, começando pelo método empregado, a cartografia, que atravessa toda a obra. O capítulo 3, que trata das estruturalidades da ficção seriada, faz uma recuperação da trajetória do melodrama e do folhetim para conectar-se às linhas diacrônicas da teledramaturgia e, assim, o leitor vai se deparar com muitas das antigas telenovelas da Globo. Por fim, a autora pontua as contribuições da história da arte para as estruturalidades televisuais. No capítulo 4 são pensados os códigos da linguagem audiovisual a partir de três regularidades consideras importantes na ficção seriada: técnicas, espaço-temporais, cenográficas.

Tendo apresentado os pilares teóricos do audiovisual e da televisão – ilustradas por referências a programas, diretores, técnicas usadas, entre outros – chega-se ao capítulo 5. Neste, a trilha segue pela Semiótica da Cultura e seu encontro com o objeto de estudo.

Um cruzamento profícuo. A aplicação de todas essas reflexões teóricas em um objeto empírico, consequentemente, é a cereja do bolo. Nos capítulos 6, 7 e 8 – analisa as rupturas de sentido em relação às regularidades apresentadas no capítulo 4. É assim que se formam os platôs da cartografia na obra de Luiz Fernando Carvalho: Platô rupturas de sentido da técnica e os rearranjos do saber-fazer teledramaturgia; Platô rupturas de sentidos da cronotopia: um quebra-cabeças do espaço-tempo; Platô rupturas de sentidos da cenografia: um patchwork de referências.

É por tudo isso que este é um livro para quem se interessa pelo mundo televisual e seus meandros ficcionais, mas é também um livro para quem gosta de explorar saberes”.

Profa. Dra. Nísia Martins do Rosário
Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Informação - PPGCOM
Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação - FABICO
Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS

SOBRE A PESQUISA

O site telerrecriação trata da pesquisa da Profa. Dra. Adriana Pierre Coca que investiga os aspectos teóricos e metodológicos das rupturas e reconfigurações de sentidos na teledramaturgia brasileira.

Contato

Adriana Pierre Coca
E-mail: pierrecoca@hotmail.com