Heróis ou Vilões? Personagens complexos em Once Upon a Time

Por Priscila Rocha Arena | 07 mai 2018

Once Upon a Time é um seriado americano de drama e fantasia, que aborda o gênero dos contos de fada de maneira atual e complexa.

A narrativa audiovisual apresenta personagens já conhecidos pelo público, porém, sob uma nova perspectiva, dando a estes maior complexidade psicológica, aproximando-os assim dos telespectadores.

Contos de fada são narrativas envolvidas em uma esfera de fantasia, com o poder de encantar gerações. Eles costumam trazer ensinamentos de cunho moral através de seus personagens, tratando de temas como amor, esperança, amizade, vingança, poder, consciência entre o certo e o errado, entre outros. Nessas histórias, a abordagem do bem e do mal geralmente é feita com base em dois tipos de personagens: o herói e o vilão. Corso e Corso (2011) ressaltam que nas histórias tradicionais “as personagens são planas e unidimensionais, o bom é bom, o mau é mau” (CORSO & CORSO, 2011, p. 178).

Contudo, como reflexo das mudanças ocorridas em nossa sociedade, ao longo do tempo os contos de fada sofreram diversas transformações, tanto nos meios de difusão quanto no próprio enredo das histórias. De acordo com Corso e Corso (2011), nos contos de fada contemporâneos está presente um tipo diferente de aventura: a jornada interior. Os personagens não vencem apenas provas de coragem, mas também enfrentam batalhas dentro de si, tornando-se mais profundos. A jornada de crescimento do personagem que antes era somente externa, agora passa a ser também interna, tornando-o mais complexo.

Em Once Upon a Time é evidente a jornada de crescimento interno das personagens Emma e Regina.
A trama acontece em uma cidade fictícia chamada Storybrooke, no Maine. Os habitantes da cidade são todos personagens de contos de fada, oriundos da Floresta Encantada, que vieram parar no nosso mundo em função de uma maldição lançada pela Rainha Má. Inicialmente, o enredo apresenta a personagem Rainha Má (Regina) como a vilã, que na busca pela vingança contra Branca de Neve lança uma maldição em todo o reino. Emma, filha da Branca de Neve e do Príncipe Encantado, é apresentada como a Salvadora, a responsável por quebrar a maldição.

Porém, ao longo dos episódios, percebemos que Regina nem sempre agiu como uma vilã, e que Emma também não é a típica heroína dos contos de fada que conhecemos. Através do relacionamento de Regina com seu filho adotivo Henry os espectadores percebem, nos traços sentimentais da personagem, que ela ainda é capaz de amar.


Regina e Henry (S03E09)

Emma, mesmo sendo apresentada inicialmente no seriado como a heroína responsável pela quebra da maldição, quando se torna Senhora das Trevas vive alguns momentos em que se mostra tentada a ceder ao mal.


Emma transforma Atchim em uma estátua (S05E01).

Com o desenrolar da trama, conhecemos melhor o passado das duas personagens e as diferentes camadas que as compõem, desvendando assim suas características sociais, psicológicas, físicas e morais, o que auxilia na compreensão de suas ações, motivações, conflitos internos e comportamento.

Emma e Regina são personagens complexas, que ao terem seus sentimentos abordados de maneira mais profunda se aproximam dos espectadores, possibilitando uma maior identificação destes com elas. As duas personagens não se limitam à titulação de heroínas ou vilãs: ao longo de suas trajetórias, agem às vezes na esfera do bem, e outras na do mal. Ao longo dos episódios, os espectadores passam a conhecer as duas personagens em um nível maior de profundidade, e por meio de suas ações percebem que elas não podem ser julgadas apenas como heroínas ou vilãs, pois diversas vezes se colocam no entremeio dessa divisão, oscilando entre o bem e o mal.

Corso e Corso (2006) ressaltam a importância das releituras dos contos de fada e dos personagens ambíguos:

As histórias de ficção são como estruturas com as quais é possível dialogar: as vidas das personagens podem nos servir tanto para retratar a forma como administramos a nossa própria, quanto para se contrapor e questionar o sistema que inventamos. Por isso, as personagens não precisam ser tão unívocas (CORSO & CORSO, 2006, p. 175).

Ao tratar dos contos de fada no meio televisual, Once Upon a Time acompanha as configurações atuais desse meio, ao apresentar histórias e personagens complexos, tecendo uma trama que entrelaça em uma mesma narrativa personagens de diferentes contos de fada. A complexidade na construção dos personagens influenciou no comportamento do espectador, pois este passou a se identificar mais com os personagens, ao ver figuras que não são apenas boas ou apenas más em sua totalidade, mas sim, seres humanos como qualquer outro, que podem oscilar entre o bem e o mal, dependendo do momento e da situação em que vivem.

Ao tratar do bem e do mal Once Upon a Time ressignifica os sentidos desses dois conceitos, já que, ao contrário dos contos tradicionais, não os coloca numa oposição binária, mas busca o que há entre eles e a sua interrelação. Por meio de personagens complexos, a dualidade entre o bem e o mal passa a ser abordada de maneira diferente, mostrando como é tênue a linha que separa esses dois lados nas trajetórias de heróis e vilões.

 

Referências

CORSO, Diana Lichtenstein; CORSO, Mário. A Psicanálise na Terra do Nunca: ensaios sobre a fantasia. Porto Alegre: Penso, 2011.

CORSO, Diana Lichtenstein; CORSO, Mário. Fadas no divã: psicanálise nas histórias infantis. Porto Alegre: Artemed, 2006.

SOBRE A PESQUISA

O site telerrecriação trata da pesquisa da Profa. Dra. Adriana Pierre Coca que investiga os aspectos teóricos e metodológicos das rupturas e reconfigurações de sentidos na teledramaturgia brasileira.

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Adriana Pierre Coca
E-mail: pierrecoca@hotmail.com