A Composição da Imagem na Televisão

Por Adriana Pierre Coca | 11 Jun 2018

A imagem na televisão assegura parte da memória cultural da humanidade, porque é impregnada de historicidade.

Neste post, vamos pontuar as contribuições à composição da imagem audiovisual e faremos isso, principalmente, segundo as orientações de Balan (1997), cuja pesquisa A iluminação em programas de TV: arte e técnica em harmonia discute a formação da imagem na televisão e perpassa a passos largos os movimentos da História da Arte.

Muito tempo antes da invenção da TV, os artistas gregos desenvolveram uma técnica que se firmou como um dos princípios basilares de enquadramento na fotografia e na imagem em movimento: o princípio do ponto dourado ou ponto de ouro. Huyghe supõe que “o Egipto foi o primeiro a conceber todos os recursos que a arte pode encontrar nas relações calculáveis, mas foi manifestadamente a Grécia que as transformou numa das bases da estética” (1986, p. 51). Dito isso, compreendemos por que a técnica do ponto de ouro (ou seção de ouro, batizada também de “divina proporção” no tratado escrito pelo pintor italiano Fra Luca Pacioli di Borgo) foi desenvolvida, e não criada pelos gregos: acredita-se que a seção de ouro pode ter sido calculada e aplicada em obras de arte desde a Antiguidade.

A busca dos artistas da Grécia era pela beleza das imagens, pois acreditavam em um mundo em que os deuses eram imortais e se assemelhavam aos homens. A arte grega antiga, que foi dividida em três períodos (arcaico, clássico e helenístico), teve na escultura a produção determinante para a evolução estética do Ocidente, principalmente depois da sua redescoberta no Renascimento (BROCVIELLE, 2012), e a técnica do ponto dourado (regra dos terços, cinco oitavos, divina proporção ou seção de ouro) foi decisiva nessa procura.

A regra consiste em dividir uma cena/tela/imagem em linhas equidistantes na horizontal e na vertical e manter o centro de interesse no ponto de interseção das linhas horizontais e verticais a 5/8 (cinco oitavos) de qualquer das margens. Dessa forma, a cena proporciona equilíbrio e afasta a monotonia visual. Os gregos elegeram a intersecção do primeiro quadrante como a mais impactante, já que é a primeira a ser visualizada por um observador. A maioria dos programas televisuais que vão ao ar são enquadrados a partir desse princípio básico.

Saltamos do período da arte grega para o Renascimento, que compreende um período próspero da produção cultural que durou aproximadamente do fim do século XIV ao final do século XVI e que oferece outra contribuição fundamental para a composição da imagem audiovisual. A arte renascentista se preocupou em traduzir “fielmente” a realidade, a natureza, o mundo ao seu redor, tendo como aliada nessa missão a técnica da pintura a óleo (BROCVIELLE, 2012), tanto assim que é criação dos artistas daquela época o trompe l’oeil, técnica de sombreamento da pintura que provoca uma ilusão de ótica, dando a impressão de uma imagem tridimensional.

Balan (1997) revela que a imagem audiovisual herdou as características principais da pintura renascentista: a triangulação, a simetria e a perspectiva, além da dimensão primordial da luz nessa relação. Um triângulo formado por três linhas imaginárias guia os componentes da imagem. No topo desse triângulo imaginário fica sempre o centro de interesse, ou seja, o conteúdo mais relevante que se quer mostrar. E, claro, os elementos menos perceptíveis, complementos da imagem/cena, ocupam os vórtices do triângulo. São as linhas da perspectiva que nos carregam, portanto, para o que interessa ser visto primeiro pelo observador/espectador.

Balan analisa os princípios da arte do Renascimento na pintura A ceia (1495-1497), de Da Vinci, que concernem também à imagem televisual.

Na obra “A Ceia” de Leonardo da Vinci observamos que a composição básica é formada por uma grande linha horizontal tendo ao meio a figura de Cristo que marca o eixo vertical. A triangulação formada em Cristo tem Sua cabeça como centro. O prolongamento de todas as linhas das perspectivas das paredes se cruzam num ponto de fuga que não outro senão a própria cabeça de Cristo. A simetria tem como centro de interesse o corpo de Cristo. A luz já aparece como elemento central neste quadro com a função de chamar a atenção do centro de interesse: está ao fundo, como uma moldura clara onde Cristo aparece com muito bom contraste. É uma primeira demonstração do aspecto iluminação como fortalecedor do centro de interesse (1997, p. 33).

O autor supõe, ao discutir o ponto dourado, que a maioria dos profissionais de televisão, acaso questionados sobre essas regras, provavelmente não iriam associá-las aos movimentos de História da Arte ou sequer nomear tecnicamente os enquadramentos que realizam. No entanto, todos trabalham intuitivamente com esses parâmetros básicos de formação da imagem quando realizam a captação de cenas na TV. Também devemos levar em conta que há um hábito modelizado no nosso modo de organizar a imagem, que é cultural. Sem dúvida, não são necessários muitos argumentos para atestar isso, basta nos relacionarmos com alguns profissionais de televisão ou, menos ainda, observar as cenas.

A herança renascentista é evidente na composição da imagem audiovisual, só que a Renascença ainda não privilegiava a luz e a sombra, o que só veio a acontecer com a Arte Barroca, que se semeia na Europa, a partir da Itália, no fim do século XVIII. Esse movimento artístico surge na Igreja como uma reação ao Protestantismo que avançava no Velho Continente. Na tentativa de conquistar mais fiéis, a Igreja Católica, que estava perdendo sua força, solicita aos artistas imagens (pinturas e esculturas) que suscitassem mais emoção, dramaticidade e movimento (BROCVIELLE, 2012).
Balan (1997) sustenta que, com isso, a imagem pictórica ganhou textura, porque o tipo de luz que passou a ser empregada como recurso para garantir tais características proporciona a tridimensionalidade. O autor assegura que o mesmo acontece quando usamos esse tipo de iluminação no audiovisual e avalia a imensa contribuição do trabalho realizado com a luz nas telas de Caravaggio, um dos mestres da Arte Barroca, para a imagem na dramaturgia audiovisual. Segundo Balan, “a técnica de iluminação de Caravaggio é utilizada na produção cinematográfica e televisiva nas cenas onde a alta dramaticidade e suspense são necessários, para levar ao telespectador sensações de preocupação e terror” (1997, p. 36).

O barroco, ao retratar nos quadros o sofrimento agudo na pele de pessoas comuns e ao tratar, inclusive, temas bíblicos com essas nuances, se opôs às convenções da arte clássica, porque se distanciou da “beleza ideal” tão venerada na Renascença. Essa exposição é que chocava os espectadores das obras barrocas. Nas palavras do historiador da arte Ernst Gombrinch, o Barroco tem uma “honestidade intransigente” (1985, p. 306) que poucos souberam apreciar na época em que o estilo foi criado, mas que foi decisiva para os artistas vindouros, que a incorporaram nas artes visuais e audiovisuais, como já dito.

A técnica à qual Balan (1997) assente que foi imprescindível para o audiovisual é o contraste entre luz e sombra reconfigurado a partir do chiaroscuro, palavra italiana traduzida literalmente como claro-escuro. A técnica surge com o cientista e artista Leonardo da Vinci, no século XV, e é também chamada de perspectiva tonal, mas são os pintores barrocos que levam o chiaroscuro ao extremo. A luz contrastante, bem demarcada - explorada em grande parte das imagens da microssérie Capitu como uma espécie de atualização da pintura Barroca - ficou também conhecida como Tenebrismo, por conta das características da luz, que denunciam uma preocupação dos artistas com as implicações psicológicas das personagens retratadas e com a dramaticidade das cenas, tanto que as pinturas barrocas eram comparadas à arte dramática – ao teatro –, pois imprimiam um efeito teatral à tela.

Caravaggio explora uma gama incessante de tonalidades escuras, o que faz com que o claro-escuro exposto em seus quadros seja violento. Essa intensidade dramática se aproxima de temáticas da Arte Romântica (séculos XI e XIII), que imprimiu emoções exacerbadas nas telas, com apelo trágico. O romantismo cedeu à televisão uma técnica que em determinados textos expõe apenas um foco de luz, arguto, pontual, permanecendo o entorno dele, o restante da cena, apenas como uma penumbra, pouco perceptível. Esse tipo de luz é comum nos textos teledramatúrgicos, mas também usual no telejornalismo, quando há depoimentos em que o rosto do entrevistado não pode ser revelado. O nome técnico para esse recurso na televisão é luz recortada. Na pintura, o exemplo são as telas de Goya que deram abertura para as expressões que marcaram e possibilitaram o movimento romântico e, mais tarde, a manifestação do expressionismo, segundo estágio da arte moderna.

Dando um salto dos clássicos para os modernos, contemplamos, por fim, um dos aspectos do primeiro período da arte moderna, o Impressionismo, que também auxilia na constituição da imagem audiovisual. O movimento impressionista é resultado de uma inquietação em relação à nova Paris, que se modernizava. Os artistas que deram as pinceladas iniciais da arte moderna são, a princípio, repudiados no Salon, principal salão de exposições da cidade-luz, porque suas imagens estavam em desencontro com a arte realista, reproduzida na tela (quadro) por tanto tempo, durante os períodos anteriores da História da Arte, em que só a figuração foi apreciada como representação do mundo. No entanto, os impressionistas não queriam reproduzir o mesmo que os pintores academicistas da época. No palco, para romper com esse modo de representar a vida, passaram a buscar o movimento, as impressões da cena, registrando o cotidiano fora dos ateliês e ao ar livre, principalmente ao redor de Paris, que naquele momento é a cidade do proletário, mas também das festas e da solidão – eis a Paris do século XIX (IMPRESSIONISMO, 2012). “Se, até então, os artistas buscavam eternizar situações e personagens considerados nobres, o Impressionismo partiu para a experimentação de uma pintura que captasse as coisas passageiras, a velocidade dos acontecimentos e a vida cotidiana” (IMPRESSIONISMO, 2012, p. 2).

A passagem da imagem mimética para a imagem vaporizada nas artes visuais deixou uma herança emblemática para o audiovisual: o tratamento primeiro-plano e segundo-plano dado à imagem, recurso muito utilizado na televisão.
Quando se deslocam dos ateliês para o ar livre e passam a pintar nos parques, praças e jardins, os artistas começam a refletir a luz na superfície dos objetos da cena e a trazer a cor para a pintura com mais força. Tanto que uma nova técnica surge nessa fase da pintura: o empaste. No desejo de trabalhar com a cor em excesso, o artista colocava a tinta diretamente sobre a tela e com o pincel a modelava: assim surge um trabalho de cores único que introduz o tom sobre tom nas artes visuais. Van Gogh teria sido o pioneiro neste tipo de pintura (BALAN, 1997). Na televisão, o contraste de uma cor sobre a mesma cor, ou seja, o tom sobre tom da pintura, nos ensinou, portanto, a “destacar o objeto em primeiro plano usando um fundo em segundo plano bastante contrastado em relação ao primeiro” (BALAN, 1997, p. 45).

Somos cientes de que a teledramaturgia brasileira vive um momento de transformações intensas diante das questões impostas pela multiplicidade de formatos que vêm surgindo no audiovisual e em virtude do cenário da convergência midiática que, consequentemente, impõe mudanças nos modos de ver e produzir imagens na contemporaneidade. E nesta via, é importante considerar que a cultura enquanto memória se reporta ao passado, mas também funciona como um sistema modelizante de comportamentos e, por isso, visa ao futuro (MACHADO, 2003, p. 163).

 

 

1 Michelangelo Merisi, o Caravaggio (c.1571-1610), nasceu na cidade de Caravaggio, na Itália. Teve uma vida pessoal conturbada, o que não o impediu de se tornar um pintor cultuado pela Igreja. Suas telas foram consideradas revolucionárias, sobretudo pela forma como trabalha a luz, tal como destacado no texto, e por retratar as personagens religiosas como pessoas humildes, indo de encontro aos propósitos da igreja naquele momento (BROCVIELLE, 2012).

2 Informações disponíveis em: <http://www.brasilcultura.com.br/artes-plasticas/tecnicas-de-pintura-chiaros curo/>.  Acesso em: 21 jan. 2017, 18:08.

3   Vicente van Gogh (1853-1890), pintor holandês, foi um mestre da pintura que teve uma produção de 10 anos e revolucionou a arte com propostas inventivas. São obras de destaque do artista Os girassóis (1888); Noite estrelada (1889); Autorretrato com a orelha cortada (1889) e Campo de trigo com corvos (1890) (BROCVIELLE, 2012).

Referências
BALAN, Willians Cerozzi. A Iluminação em programas de TV: arte e técnica em harmonia. Bauru, 1997. 137f. Dissertação (Mestrado em Comunicação e Poéticas Visuais) – Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação, UNESP Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, Bauru, 1997.

BROCVIELLE, Vincent. Larousse da história da arte. Trad. Maria Suzette Caselatto. São Paulo: Editora Lafonte, 2012.

GOMBRICH, Ernst H. A história da arte. Trad. Álvaro Cabral. 4. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.

HUYGHE, René. O poder da imagem. Trad. Helena Leonor Santos. São Paulo: Martins Fontes, 1986.

IMPRESSIONISMO: Paris e a Modernidade: Obras Primas do Musée D´Orsay. Catálogo da Exposição, Centro Cultural Banco do Brasil e Fundación Mapfre, São Paulo: 2012.

MACHADO, Irene. Escola de semiótica: a experiência de Tártu-Moscou para o estudo da cultura. Cotia/SP: Ateliê Editorial, 2003.