As referências intermediáticas do cinema em Capitu.

Por Adriana Pierre Coca | 27 Ago 2018

As referências intermidiáticas entre o cinema e o texto televisual da microssérieCapitu (TV Globo/2008) é a discussão do post dessa semana no Blog Telerrecriação.

Essa discussão dá continuidade às reflexões sobre as relações intermediáticas na ficção seriada televisual e traz como objeto empírico a microssérieCapitu, cientes, no entanto, que outras além dessas que são citadas se fazem presente na narrativa.

Alguns diálogos observados em Capitu estabelecem relações entre textos por meio de citações evidentes, como o filme Othello, de Orson Welles, de 1952. Cenas do longa-metragem aparecem no último capítulo, quando Bentinho vai ao cinema, um exemplo de referência intermidiática, como apontada por Rajewsky (2012). De fato, uma citação audiovisual inserida na história contada na TV.

Nesse caso, o discurso alheio pode ser percebido claramente, trechos do filme fazem parte da microssérie. Não se deve esquecer que o filme já é uma obra recriada a partir da literatura, a peça teatralOthello, The MoorofVenice, traduzida como Otelo, o mouro de Veneza, de William Shakespeare, escrita em 1603. Otelo é também o título do capítulo 125 do livro Dom Casmurro. Antes dele, o capítulo 62 também faz uma alusão à história escrita por Shakespeare, com o capítulo intitulado Uma ponta de Iago. Iago é a personagem que calunia Desdêmona, esposa de Otelo, que acaba sendo morta pelo marido por ciúme, uma associação à personagem de José Dias, o agregado da família de Bentinho, que vive fazendo insinuações sobre uma suposta traição de Capitu.

No texto literário, Bentinho vai ao teatro e vê a encenação da peça Otelo, momento em que associa Desdêmona à Capitu e começa a devanear que sua esposa também deve morrer. Na época em que se passa a história, segunda metade do século XIX, ir ao teatro é um hábito comum entre a classe abastada, a qual pertence Bentinho, mas o cinema ainda não existia, surge no final do século. Pode-se deduzir que a história contada por Dom Casmurro se passa entre os anos de 1857 e 1872, portanto, anterior ao surgimento do cinema, que tem sua origem oficial datada de 28 de dezembro de 1895.

Muitas outras referências aparecem de maneira mais sutil, até mesmo velada, e não são diretamente identificáveis, algumas serão percebidas pelo telespectador mais atento e com repertório para isso. Mesmo a citação a Othello exige repertório e atenção redobrada.

Outro exemplo de referência intermidiática com o cinema foi em relação ao trabalho do britânico radicado na Holanda Peter Greenaway, revisitado nas imagens sobrepostas e nas escrituras à pena, que se assemelham ao filme The Pillow Book ou O Livro de Cabeceira, de 1996, que une pintura ideográfica e teatro. Nele, a personagem principal, Nagiko, cultiva a escrita em seu próprio corpo. A referência não é direta como ao filme Otelo, mas pode ser identificada na composição das imagens.

Em outro momento, a geração de caracteres é explorada de maneira distinta das imagens que remetem ao filme The Pillow Book. A interface com o texto escrito se concretiza sobre a tela, reproduzindo caracteres que se assemelham aos registrados por máquinas de datilografar. Sobre isso, Arlindo Machado (2011) defende que uma das conquistas mais interessantes do vídeo-arte foi recuperar o texto verbal e trabalhá-lo junto com o icônico, como evidenciado também em Capitu.

Algumas dessas imagens podem ser associadas ao cinema silencioso (1895 – 1928), é dessa época que acredita-se que a palavra escrita é recuperada e atualizada no vídeo-arte, como sugere Arlindo Machado (2011). Já que com o advento do cinema sonoro, com o musical O cantor de Jazz,dirigido por Alan Crosland, “tornou-se raro inscrever palavras na imagem e, mesmo em Godard, a palavra escrita no ecrã não tem uma função que a ligue à própria narração no sentido geral.” (CHION, 2011, p. 132.).

Na microssérie Capitu é exatamente isso o que acontece, as escrituras que aparecem na tela, unindo a palavra escrita e a imagem, são trechos literais do romance acompanhados pela narração, uma referência intermidiática e uma fusão entre a mídia literária e a televisual, mais especificamente na tela. Esse é um recurso muito comum nos videoclipes de bandas de rap e pop da atualidade, que reproduzem na tela por escrito as palavras que ouvimos nas canções. Como sintetiza Michel Chion “passeia-se livremente de maneira viva, entre o escrito e o oral.” (Idem).Esse recurso é chamado de lyric video, quando a música é exibida  e as imagens reproduzem a letra da canção na tela, em alguns casos, o artista sequer aparece em cena, muitos efeitos de computação gráfica são explorados e a divulgação desses videoclipes é realizada, principalmente, na internet (JESUS; TREVISAN, 2013).

Resumindo, nesse aspecto a visualidade nas imagens de Capitu resgata uma textura que em muito lembra o cinema silencioso, no entanto, reproduz um recurso usado com frequência em uma linguagem contemporânea, os videoclipes de rape músicas pop. Uma relação intermidiática que remete ao cinema e ao videoclipe e exemplifica bem o que é a fusão midiática.

Retomando a referência ao cinema silencioso na microssérie Capitu, além da escrita sobre a tela, as imagens em preto e branco também foram usadas para estabelecer essa relação, cenas de arquivo da época foram inseridas ao longo dos cinco capítulos.

Outra referência ao cinema silencioso são as vinhetas/cartelas que funcionaram como intertítulos. As cartelas no cinema silencioso funcionavam como legendas que ajudavam o espectador a interpretar a história, mas essas telas com texto não são exatamente uma substituição aos diálogos, essas legendas também estabeleciam uma divisão da história contada e, por isso, podem ser comparadas às vinhetas/cartelas de Capitu. Como se sabe, a narrativa é construída em cima de lembranças (flashbacks) e a divisão em microcapítulos também reforça essa característica da história, que é dividida em tópicos, com títulos curtos, que se aproximam ainda aos trechos/atos dos espetáculos de óperas.

Por fim, destacamos outra referência intermidiática como alusão. Trata-se deuma semelhança com uma das cenas principais do filmeHair, de 1979, dirigido por Milos Forman, quando o protagonista dança em cima de uma mesa de jantar, a cena parece ser reproduzida na cena deCapituem que o ousado personagem Escobar caminha sobre a extensa mesa em que os seminaristas fazem a refeição, causando admiração no colega recém-chegado, Bento Santiago. A cena é intercalada com outras imagens da personagem dançando em locais variados e acompanhada por uma versão instrumental da canção Iron Man, da banda de rock norte-americana Black Sabbath.

As relações aqui mencionadas nos fazem refletir sobre as inspirações de base para construção da visualidade da microssérie e também nos trazem exemplos que permitem aclarar as relações entre mídias.Essa discussão faz parte da minha dissertação de mestrado e uma versão mais aprofundada desse texto pode ser encontrada em Coca (2015).

Ecrã significa tela.
O autor Michel Chion se refere ao cineasta Jean-Luc Godard, cineasta francês, um dos principais representantes do movimento conhecido como Nouvelle Vague. Entre suas obras estão: La chinoise (1967), Jevoussalue Marie (1985) e Nouvelle Vague (1990). Informações disponíveis em: <http://www.infoescola.com/biografias/jean-godard/>. Acesso em: 27.08.2017 às 15h18.

 

REFERÊNCIAS

CHION, Michel. A audiovisão – som e imagem no cinema. Texto & Grafia: Lisboa, 2011.

COCA, Adriana P. Tecendo rupturas: o processo da recriação televisual de Dom Casmurro. Rio de Janeiro: Tríbia, 2015.

JESUS, Rafael; TREVISAN, Michele K. Lyric video: uma nova estética de divulgação da música pop. Revista RUA (Revista Universitária do Audiovisual) da Universidade Federal de Santa Catarina. Florianópolis, jul/2013. Disponível em: <http://www.rua.ufscar.br/site/?p=16793>. Acesso em: 29.10.2013.

MACHADO, Arlindo. Pré-cinemas & pós-cinemas. 6. ed. Campinas: Papirus, 2011.

RAJEWSKY, Irina O. A fronteira em discussão: o status problemático das fronteiras midiáticas no debate contemporâneo sobre intermidialidade. Trad. Isabela Santos Mundin. In: DINIZ, Thaïs Flores Nogueira; VIEIRA, André Soares (org.).  Intermidialidade e estudos interartes – desafios da arte contemporânea II. Belo Horizonte: UFMG, 2012a, p. 51-73.