O ato de escrever uma pesquisa¹

Por Adriana Pierre Coca | 17 Set 2018

O post de hoje traz um relato pessoal sobre o meu processo de tessitura/criação dos meus dois livros já publicados, sobretudo o último - Cartografias da teledramaturgia brasileira: entre rupturas de sentidos e processos de telerrecriação (Labrador: São Paulo, 2018)².

De antemão, vou resgatar a minha trajetória profissional, que não deixa de ser pessoal de certo modo, porque entendo que as subjetividades de todo autor são inerentes aos seus textos. Eu sou formada em Rádio e Televisão pela UNESP (Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”) de Bauru, interior paulista. Também sou jornalista e trabalhei durante muito tempo nos bastidores da TV. Nesse ínterim, eu escrevi, editei, produzi e dirigi programas de televisão, no telejornalismo e no entretenimento, principalmente na TV Cultura de São Paulo (Fundação Padre Anchieta) e no SBT (Sistema Brasileiro de Televisão), que foram as emissoras onde permaneci por mais tempo. Depois fui ser professora de televisão e contando dessa maneira tão sucinta, parece que foi fácil, só que não é bem assim. Essa trajetória foi no mínimo, intensa. Além de prazerosae de muito aprendizadoe acredito que isso interessa a esse relato porque foi nesse período que eu construí o meu repertório e adquiri a experiência prática, essenciais para o meu ritual de passagem entre o mercado de trabalho em televisão e a sala de aula.

Dois anos depois que eu estava dando aulas, resolvi fazer um curso de mestrado em Comunicação e Linguagens na Universidade Tuiuti do Paraná, na época, eu morava em Curitiba e estava decidida a continuar na vida acadêmica. Tanto que,assim que finalizei o mestrado, me mudei para Porto Alegre para cursar um doutorado em Comunicação e Informação, na UFRGS, a Universidade Federal do Rio Grande do Sul. 

Os meus livros são resultados das pesquisas de mestrado e doutorado, ou seja, meu processo de criação se difere de quem escreve ficção, meu trabalho alia as minhas experiências e subjetividades, é claro, mas também muita leitura e pesquisa científica e exige um modo particular de escritura, traça um diálogo entre diferentes autores,para refletir crítica e conceitualmente sobre a televisão, sobre a ficção seriada, mais especificamente.

Pessoalmente acredito que independente do trabalho de criação realizado, seja ele literário ou não, alguns passos são imprescindíveis, etapas que me parecem que devem ser inerentes aos dois perfis de escritores, o ficcional e o pesquisador. Um deles é você criar sua própria metodologia de trabalho; a grossíssimo modo, é você ser capaz de organizar e acionar o seu repertório, as informações sobre o que você quer discorrer, sobre o que você vai falar em um livro, eu diria que é tecer um roteiro das ideias, do encadeamento das cenas, capítulos. Uma investigação ou um texto ficcional precisa ter uma coerência interna, chegamos nisso com muita reflexão e, sem dúvida, um planejamento adequado. A metodologia deve acolher todo o trabalho de pesquisa, não é apenas como você vai coletar informações ou discorrer e apresentar os resultados e, menos ainda,como organiza sua agenda diária.

Gosto das orientações e caminhos sugeridos pelo método cartográfico, porque ele não traz um modelo estanque a ser seguido, pelo contrário, diz que cada pesquisador descobre/tece o seu, mas dá algumas pistas, indica alguns trajetos a serem pensados para orientar o trabalho. É preciso operacionalizar o processo e ao mesmo tempo ser capaz de perceber e encontrar o melhor percurso para o seu processo de criação. Essa é a busca da cartografia, uma autonomia que permite que cada escritor de ficção e/ou pesquisador trace ummovimento flutuante, que vai se (re)construindo o tempo todo, ainda que tenhamos planejado todas as etapas. Isso porque durante o trajeto vamos circulando entre vieses teóricos diversos, além de outros materiaisde ordem não científica, como entrevistas, reportagens, roteiros e, claro, novas percepções que vão surgindo.

É importante observar que, no campo comunicacional, a cartografia é recente e ainda usada com parcimônia, por vezes mesclada a outras metodologias. Rosário (2016) pensa a cartografia na comunicação como um caminho metodológico que traça um mapa inacabado do objeto de estudo a partir do olhar vigilante, aliado às observações do pesquisador-cartógrafo, que são únicas. Essa definição traz dois pressupostos fundantes da cartografia, a meu ver: a multiplicidade e a subjetividade.

A cartografia é uma proposta de Deleuze e Guattari (1995) que tem em sua origem a noção de múltiplo. Os autores sugerem que o mapa construído no desenvolvimento da pesquisa se revela a partir de rizomas, com pontos de intensidades, linhas distintas e conexões diversas que se movem e vão traçando um mapa nunca acabado. Nesse sentido, o percurso de cada pesquisador-cartógrafo é diferente, ou seja, cada estudo tem o seu mapa/rizoma tecido com coordenadas que diferem entre si.

Na minha pesquisa, publicada no livro supracitado, construí uma cartografia da teledramaturgia da TV aberta no Brasil, percorrendo as rupturas de sentidos na obra do autor e diretor de audiovisual Luiz Fernando Carvalho, mas estou ciente de que mesmo na produção audiovisual dele há outras cartografias passíveis de serem tramadas. Também é por causa dessas condições que o procedimento metodológico cartográfico não oferece um modelo, um método a ser seguido à risca, e sim incita o pesquisador/autor a criar o próprio movimento – não sem o rigor científico necessário, com critérios que devem orientá-lo, e tendo um planejamento a ser realizado.

A multiplicidade está intimamente vinculada ao rizoma e é uma de suas características, permitindo observar as singularidades do objeto de pesquisa (como elementos que constituem o múltiplo), que são pontos fundamentais de toda cartografia, ou seja, as diferenças desse objeto. A busca cartográfica reside nas diferenças. Já na subjetividade está imbuída a ideia de processualidade, e quando falo em configurações de subjetividades na formação dos mapas/rizomas estou alertando para o caráter potencialmente oscilante de mudanças no processo, porque os rizomas formadores das cartografias são compostos por vetores heterogêneos: políticos, sociais, econômicos, ecológicos, tecnológicos e outros (DELEUZE; GUATTARI, 1995; KASTRUP, 2007; 2008).

Assim sendo, essas também foram as noções que me guiaram e ainda orientam as pesquisas que desenvolvo,uma circunstância de trabalho movente, que se modifica a cada descoberta, despertar do objeto estudado ou impacto externo.

A perspectiva cartográfica também nos alerta para a importância da pesquisa de dados, eu diria que mais do que isso, para os materiais adjacentes. Pensando no estudo de televisão, me parece que podemos dar como exemplo as críticas de TV, as reportagens sobre os programas, além das informações sobre os bastidores das produções e ainda, materiais extras, entrevistas de apresentadores/atores.

Como sugestão,encerro apenas deixando meu incentivo para que publiquem suas pesquisas. Repensem suas metodologias de trabalho; deem atenção à coerência textual e busquem maneiras de estarem relaxados para que surjam novas e boas ideias, a partir das subjetividades e vivências que trazem dentro de si.

 

Notas:

1 - Esse relato é uma versão parcial da palestra integrante da mesa-redonda Escrever e publicar um livro: conversa com autores, da qual fiz parte, junto com os autores: Kleber Fontes, autor de 7 passos para o sucesso na importação. O manual para ser bem sucedido no comércio exterior (São Paulo: Labrador, 2017) e Luiz Eduardo Celidonio, escritor de Mulheres que voam: as primeiras a conquistar os céus (São Paulo: Labrador, 2018).
2 - O meu primeiro livro é: COCA, Adriana P. Tecendo rupturas: o processo da recriação televisual de Dom Casmurro, Rio de Janeiro: Tríbia, 2015.

REFERÊNCIAS

COCA, Adriana P. Cartografias da teledramaturgia brasileira: entre rupturas de sentidos e processos de telerrecriação. Labrador: São Paulo, 2018.

_______. Tecendo rupturas: o processo da recriação televisual de Dom Casmurro. Tríbia: Rio de Janeiro, 2015.

DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil Platôs: capitalismo e esquizofrênia. Volume 01. Rio de Janeiro: Editora 34, 1995.

KASTRUP, Virgínia. O funcionamento da atenção no trabalho do cartógrafo. Revista Psicologia & Sociedade. Rio de Janeiro, 2007, p. 15-22.

_________. O método da cartografia e os quatro níveis da pesquisa-intervenção. In: Castro, Lúcia Rabello de; Besset, Vera Lopes (orgs.). Pesquisa-intervenção na infância e juventude. 1 ed. Rio de Janeiro: Nau, v.1, 2008, p. 465-489.

ROSÁRIO, Nísia M. Cartografia na comunicação: questões de método e desafios metodológicos. In: Lopes, Maria ImmacolataVassallode; Moura, Cláudia Peixoto de (orgs.). Pesquisa em comunicação: metodologias e práticas acadêmicas. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2016.