Cineresistências: por uma potencialização das minorias

Por Caio Ramos, Douglas Ostruca, Laila Oliveira, Nísia Martins do Rosário, Paula Coruja | 27 Set 2018

A 1ª Mostra Cine Resistências é um projeto criado por estudantes de diferentes universidades - UFRGS, UFPEL, UFSCAR - , cujo o objetivo é dar visibilidade a curtas-metragens, longas-metragens e videoclipes de diversos estados do país que abordem questões TLGBQIA+ e do movimento feminista.

As mostras contarão com rodas de conversas após as exibições, buscando dar espaço para o compartilhamento de diferentes perspectivas. O Cine Resistência acontecerá em 5 cidades, sendo elas Pelotas/RS, Porto Alegre/RS, Maringá/PR, São Carlos/SP e Campinas/SP.

Entre os dias 01 e 05 de outubro o núcleo de pesquisa Corporalidades, da UFRGS, em parceria com a Sala Redenção (Cinema Universitário da UFRGS) e o Sesc/RS, apresentam a I mostra CineResistências em Porto Alegre, visando promover um espaço para o debate de questões que atravessam o cotidiano de grupos socialmente marginalizados. A intenção da mostra é estabelecer uma postura de resistência em relação às invisibilizações estratégicas de vozes que denunciam as violências cotidianas que lhes são direcionadas, de vozes que não se conformam com padrões normativos impostos socialmente, de vozes que exigem passagem e que não vão se calar!

Uma das preocupações na seleção dos filmes foi dar visibilidade para trabalhos voltados para os grupos mais fragilizados dentro dos próprios movimentos de minorias. Assim, propomos colocar em evidência vivências de travestis, transexuais, lésbicas, bixas, negras e negros, as quais precisam ser ouvidas a partir de suas experiências específicas, considerando seus enfrentamentos e lutas diárias. Desse modo, por meio desse espaço, o desejo é o de potencializar essas vidas, criar conexões, fazer proliferar as linhas de resistências coletivas a partir da diferença.

Em sua primeira edição, entre longas e curtas, a mostra conta com dez filmes em Porto Alegre: Afronte (Marcus Azevedo, Bruno Victor, 2017), Antes o tempo não acabava (Sérgio Andrade, Fábio Baldo, 2017), Estamos todos aqui (Chico Santos e Rafael Mellim, 2017), Meu corpo é político (Alice Riff, 2017), Meu nome é Jacque (Angela Zoé, 2016), Primavera (Fábio Ramalho, 2017), Primavera de Fernanda (Débora Zanatta, Estevan de la Fuente, 2016); Sobrevivências (Leonidas Taschetto e Gabriel Celestino, 2018), Uma mulher fantástica (Sebastián Lelio, 2017) e Vaca profana (René guerra, 2017).

   

Um manifesto pela resistência

Considerando nosso contexto, percebemos que o desejo de destruição das diferenças vem se reforçando, abrindo espaço para demandas fascistas, as quais atravessam até mesmo pautas políticas e legitimam posicionamentos extremistas (#elenão). Em vista disso, acreditamos que a mostra CineResistências seja a materialização do nosso desejo de fazer frente a essas ciladas, de fazer proliferar conexões potentes, de fazer a diferença e dar visibilidade às multiplicidades.

O cinema, assim, emerge como uma instância privilegiada como modo de ser fazer ver a produção dos corpos (SILVA, 2018), dos gêneros, das sexualidade e dos afetos. Apostar no cinema enquanto uma tecnologia de produção de corpos implica a possibilidade de tomá-lo também como trincheira, como efetivo espaço de resistência. Nesse sentido, assim como mostram as diferentes trajetórias das personagens que perambulam por entre os filmes trazidos por essa mostra, consideramos que a resistência se faz por meio do corpo, através da luta pela sobrevivência, pela afirmação da singularidade, pela possibilidade de reinventar-se, de criar para si outros modos de se relacionar, de desejar, de afetar e ser afetada (GUATTARI; ROLNIK, 2013).

As resistências são redes vivas que se conectam, e, juntas, compõem multidões que insurgem contra as violências que lhes são dirigidas, as quais muitas vezes são legitimadas pelo próprio Estado, como já observou Judith Butler (2016) ao constatar que determinadas vidas, por não se enquadrarem nas normas daquilo mesmo que se reconhece enquanto vida, não são passíveis de luto.

Além disso, pensamos que as resistências não se fazem por meio de ações mirabolantes, mas através de ações concretas, no próprio ato de existir. Assim, fazemos coro com Paul-Beatriz Preciado quando diz que “a revolução está acontecendo agora, na sua frente. Você está no meio dela e, consciente ou não, você faz parte dela. ‘Transfeminismo’ é o nome dessa revolução. Se você está cheio do seu gênero, cansado de binários (menino-menina, hetero-homo, branco-não branco, animal-humano, norte-sul), além do modelo ‘casal romântico’, perdendo as esperanças no capitalismo e vive verdadeiramente a utopia de se tornar outra pessoa, você é transfeminista.



Transfeminismo não é pós-feminismo. Transfeminismo é o feminismo do século XXI reloaded” (2018, p.6). Portanto, desejamos que esse espaço nos permita estabelecer encontros potentes, que nossos corpos vibrem fazendo proliferar linhas de resistência, linhas de fuga da normatividade que violenta os corpos dissidentes. Acreditamos que juntas somos multidões!

 

REFERÊNCIAS

BUTLER, Judith. Quadros de guerra. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2016.
GUATTARI, Felix; ROLNIK, Suely. Micropolítica: cartografias do desejo. 12. ed. Petrópolis, Rio de Janeiro: vozes, 2013.
PRECIADO, Paul-Beatriz. Transfeminismo. São Paulo: n-1 edições, 2018.
SILVA, Caio Ramos da. Corpos (Trans) Formados no cinema. 2018.Dissertação (Mestrado em Comunicação). Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre.