O que nos aniquila

Por Rodrigo Oliva, Doutor em Comunicação e Linguagens. Professor Universitário, Autor do livro: Por uma estética da hiperestilização.| 02 jan 2019

As grandes cidades oferecem momentos que nos colocam diante de nossos próprios enfrentamentos.

Este combate, tão surdo em tempos contemporâneos, nos assalta e expõe as nossas torpezas e fragilidades. Foi a sensação que tive ao passear pela exposição Raiz, do artista chinês Ai Weiwei, em exposição na Oca, em São Paulo.

Fui assaltado! Não assaltado no termo corriqueiro que nos assola cotidianamente, mas assaltado no sentido pleno do termo, fui arrebatado! No ano passado, assisti o filme Human Flow e fiquei impressionado com as imagens criadas por Weiwei e o debate que ele traça sobre a estética cinematográfica evidenciada por uma forma cinedocumental lírica e poética e, ao mesmo tempo, dissecando o impacto social causado pelos debates sobre a questão dos refugiados.

Este enfrentamento político social cuja abordagem é traçada a partir de ativismos, que caracterizam a obra de Weiwei, está em todos os cantos da exposição. Tudo é carregado de História. O diálogo arte e ativismo é observado a partir do momento que você começa a compreender o contexto que circunda cada pedaço da mostra, mais do que representações estáticas, há um movimento implícito e poético que transparece de um ato.

Uma das obras mais impactantes foi a instalação Sementes de Girassol. São 37 milhões de sementes de porcelana pintadas que foram trazidas para a exposição em São Paulo. As sementes foram pintadas por artesãos, na sua maioria mulheres. Elas formam uma grande estrutura plana, uma única superfície. A obra é cheia de simbolismos que remetem a infância de Weiwei e a história cultural da China.

O impacto de caminhar pela exposição é sentir a arte no seu sentido político, no seu enfrentamento estético e lúdico. O encantamento de uma narrativa cujas memórias do artista são evidenciadas em marcas e cicatrizes, a partir da relação com o pai e o olhar de criança em meio a Revolução Cultural Chinesa. Quando chegamos no bote inflável de 60 m feito com pvc reforçado, obra intitulada Lei da viagem, somos bombardeados com aquilo que nos aniquila, a imensidão da crise humanitária que nos assola em tempos contemporâneos. Caminhar pela exposição RAIZ do Ai Weiwei é o embate entre nossas fraquezas e angústias, é ver no olhar do artista os traços de uma arte que se materializa em atos, em ativismos, o que nos estarrece e, ao mesmo tempo, nos encanta.