Cão sem plumas: corpos em movimento no palco, na tela e atravessados por poesia

Por Adriana Pierre Coca | 20 SET 2017

Como o rio / aqueles homens / são como cães sem plumas / (um cão sem plumas / é mais que um cão saqueado; / é mais que um cão assassinado. / Um cão sem plumas / é quando uma árvore sem voz. / É quando de um pássaro / suas raízes no ar. / É quando a alguma coisa / roem tão fundo / até o que não tem). Trecho de O cão sem plumas.

O cão sem plumas (1953) é um poema de João Cabral de Melo Neto (1920-1999), pernambucano que traduziu quase como um manifesto em forma de versos a agonia de um rio, o rio Capibaribe que serpenteia todo o estado em que nasceu, Pernambuco, nordeste do Brasil. É esse texto que agora se move representado nos corpos dos bailarinos da companhia de dança da coreógrafa, Deborah Colker, que criou o espetáculo Ovo (2009) para os artistas do Cirque du Soleil e também dirigiu os movimentos da abertura da Olimpíadas do Rio. Essa dança, no entanto, teve como parceiro outro especialista em movimento, só que das imagens em movimento, o cineasta Claudio Assis, responsável pelo longa-metragem Amarelo Manga (2002), entre outros.

Nesse texto dançante e poético, teatral e audiovisual, Colker (2017)¹ diz que há momentos em parece que o bailarino sai do palco e vai para a tela e em outros, seu corpo deixa a tela e se transporta para o palco. Uma fusão entre três artes: a poesia, a dança e o cinema que propõe, sem dúvida, uma experiência intermidiática conduzida por corpos que dançam.

Uma divisão tripartida oferecida pela semioticista Irina Rajewsky (2012) propõe pensar a intermidialidade em um sentido restrito como uma transposição midiática. Por exemplo, a transposição do poema de João Cabral para o teatro, a dança ou o cinema; nessa proposta, o foco é a criação de um produto transformado para outra mídia. Em outro sentido, Rajewsky (2012) chama a atenção para a intermidialidade como uma combinação de mídias distintas, as relações mixmídias, como acontecem em alguns programas de TV, performances ou espetáculos de dança.

E no último sentido restrito para se refletir sobre as relações intermidiáticas, segundo a autora, há as referências entre mídias, como a citação de um texto literário em um seriado de TV, a evocação de técnicas cinematográficas na composição de uma história em quadrinhos ou a musicalização da literatura.

Todas essas possibilidades podem se mesclar em um único texto, e é o que parece acontecer na recriação de Cão sem Plumas concebida por Colker e Assis. As referências que compõem a produção realizam um diálogo interartes permeado pelos três vieses colocados por Rajewsky (2012): a combinação, a referência e a transposição e faz isso para nos lembrar de uma questão imprescindível para a sobrevivência humana, a escassez de água doce no mundo, infelizmente um problema que inspirou poesia há mais de cinco décadas e ainda se faz tão atual.

O espetáculo esteve em Porto Alegre no início deste mês e estreia essa semana no Teatro Municipal da cidade do Rio de Janeiro.

Na paisagem do rio / difícil é saber / onde começa o rio; / onde a lama / começa do rio; / onde a terra / começa da lama; / onde o homem, / onde a pele começa da lama; / onde começa o homem (…) Trecho de O cão sem plumas

¹ Entrevista concedida à revista eletrônica Fantástico em 23/07/2017. Disponível em: http://g1.globo.com/fantastico/noticia/2017/07/deborah-colker-mistura-de-danca-poesia-e-cinema-em-novo-espetaculo.html Acesso em: 24/07/2017, 10:51.

REFERÊNCIAS

MELO NETO, João Cabral de. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1999, p. 105-116.

RAJEWSKY, Irina O. A fronteira em discussão: o status problemático das fronteiras midiáticas no debate contemporâneo sobre intermidialidade. Trad. Isabela S. Mundin. In: DINIZ, Thaïs Flores Nogueira; VIEIRA, André S. (orgs.). Intermidialidade e estudos interartes – desafios da arte contemporânea II. Belo Horizonte: UFMG, 2012, p. 51-73.

SOBRE A PESQUISA

O site telerrecriação trata da pesquisa da Profa. Dra. Adriana Pierre Coca que investiga os aspectos teóricos e metodológicos das rupturas e reconfigurações de sentidos na teledramaturgia brasileira.

Contato

Adriana Pierre Coca
E-mail: pierrecoca@hotmail.com