Humanos, Heróis e Deuses por trás da pesquisa

Por Marlon Reikdal| 25 mar 2019

Esse texto apresenta o livro - Rastros de Telerrecriação em Cartografia Movente - uma reflexão que nos oferece uma construção diferenciada dos artigos e teses que a autora, Adriana Coca, elaborou até aqui, como alguém que desejou nos mostrar o que existe por dentro, por trás, nos bastidores de uma construção científica..

Quando Coca me pediu para fazer a apresentação dessa obra, logo entendi que não fui colocado nesse lugar para falar da pesquisadora, afinal, não sou nenhuma referência acadêmica. Sendo psicólogo, meu ofício é falar da alma, daquilo que move as pessoas, ou da imobilidade à qual elas se impõem, e por isso adoecem. A psicologia desenvolveu um olhar que se distancia da aparência para reconhecer o profundo, o essencial, o que dá sentido à vida e mantém as pessoas vivas... Então, embora o meu percurso comece com a pesquisadora, logo encontra essa pessoa que conheci, que me encantei, e que dá sustentação ao que faz.

Adriana em pouco tempo chegou muito longe na área da comunicação, tendo assumido importantes cargos de supervisão em espaços de destaque do mercado televisivo brasileiro. Porém, a leitura que faço é que sua alma queria mais, ir além, e embarcou numa viagem para longe, para fora, em busca de novos caminhos... Contudo, quando decidiu iniciar esse trajeto, estava ela engrenando na maior viagem que um ser humano pode e deve realizar: o caminho para dentro de si mesmo.

Distante praticamente de tudo que lhe era conhecido, confortável e seguro, veio para Curitiba, onde lhe conheci. Iniciou na docência de uma importante universidade (Universidade Positivo). Realizou seu mestrado na Universidade Tuiuti do Paraná. E foi para o doutorado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Até que nos encontramos nessa produção Rastros de Telerrecriação em Cartografia Movente, que começa com o capítulo - As estruturalidades da teleficção e a busca pelo "efeito de real", uma discussão profícua e bem exemplificada sobre a construção do "efeito de real" na produção de teledramaturgia da TV aberta no Brasil. Mais do que uma mera reprodução da realidade, ampliando-se ao “efeito de real”, Adriana argumenta que os elementos da cena, na verdade, impõem "sentidos de realidade" a essas narrativas.

Em seguida, As (in)tradutibilidades das histórias de ficção contadas na TV nos enreda por uma reflexão mais teórica, propositalmente, situada nessa parte da coletânea, porque explicita questões que serão tratadas adiante. Esse texto, apresentado em um congresso na Universidade de Santiago de Compostela, na Espanha, enfatiza que embora pareça que as tramas se repitam nas séries, minisséries e, sobretudo, nas novelas diárias que vemos na televisão brasileira, essas histórias podem, sim, ter momentos imprevisíveis, os instantes de intradutibilidade, que, como defende a autora, são construções valiosas para atualização da linguagem audiovisual e que se contrapõem ao “sentido de realidade” refletido na primeira exposição.

O capítulo 3 - Telerrecriar: um modo crítico e criativo de se pensar e produzir televisão - é mais denso e, sem dúvida, vai interessar aos estudiosos do audiovisual contemporâneo. Adriana traduz a noção de telerrecriação como um dos modos do saber-fazer televisão de forma crítica e criativa. Para isso, ela transita pelas noções de criação e explosão advindas da Semiótica da Cultura, processos norteados pelas rupturas de sentidos e resgata o conceito de transcriação do poeta e crítico literário Haroldo de Campos, além da definição de sentido obtuso de Roland Barthes, aquele sentido de nos desvia do senso comum.

A palestra que demarca a metade deste livro, A dinâmica da criação e a escrita científica, revela um texto mais leve e descontraído e também um retrato mais pessoal que não exclui a Adriana pesquisadora. Talvez, por ter sido uma apresentação realizada para um público diverso, ela se permitiu introduzir nessa conversa momentos da sua vida cotidiana com certa desenvoltura. E faz isso entremeando relatos sobre o seu processo criativo.

No próximo capítulo, A experiência cartográfica na pesquisa sobre teledramaturgia, ela continua expondo os bastidores da sua pesquisa de modo mais suave, conta o passo-a-passo, os caminhos e descaminhos da investigação cartográfica que desenvolveu durante os quatro anos do curso de doutorado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Assim, em Mapa inacabado da obra televisual de Luiz Fernando Carvalho ficou mais coerente apresentar os resultados desse estudo, um texto que sinaliza amadurecimento teórico, mas também seu olhar crítico e aguçado para a produção de audiovisual na contemporaneidade, deixando explícitas duas de suas paixões, a televisão brasileira e a produção acadêmica.

O livro se finda com Reconfigurações de sentidos na cenografia da ficção seriada brasileira, trabalho apresentado na Costa Rica, em 2018, no Congresso da Associação Latino-americana de Investigadores de Comunicação (ALAIC). Mais uma vez, os cruzamentos entre as regularidades e as irregularidades que constituem as narrativas ficcionais na televisão do Brasil são colocados em discussão e nos transportam para dentro dessas produções, assim como nos permite conhecer melhor a Adriana pesquisadora.

Essas reflexões e relatos só me fazem crer que este é um livro que merece ser lido por investigadores e criativos e, também, por aqueles que gostam de audiovisual, que buscam entender os diversos textos da cultura ou que, simplesmente, querem conhecer mais os processos de produção na TV ou como fazer pesquisa e, ainda, saber um pouco mais sobre essa pesquisadora que reencontramos, agora, novamente em São Paulo, onde certamente seu olhar e seu fazer já lhe transformaram por inteiro.

Na mitologia grega Adriana seria comparada a Atena – deusa da sabedoria, da justiça, da estratégia em batalhas. Filha de Zeus, nasce da cabeça do pai, plenamente armada, sendo imbatível nas guerras. Está ligada também a função civilizadora da cultura e das artes. Ao mesmo tempo em que era uma guerreira, também teve a oportunidade de mostrar seu lado benevolente, favorecendo humanos e deuses em diferentes ocasiões.

Então, volto meus olhos para a imagem de Adriana, e vejo a essência da guerreira, embora sob o véu da meiguice que lhe é peculiar. Nesses dias onde a academia sofre algumas críticas, temos aqui um belo desvio. Há quem diga que algumas pesquisas têm servido apenas para tentar fundamentar quantitativamente aquilo que seus pesquisadores já acreditavam, contrariando a própria essência do “pesquisar”. Somado a isso, constatamos um número significativo de jovens formados que adentraram os programas de pós-graduação como continuidade dos seus estudos, por não saber o que fazer com seus diplomas, ou pela falta de emprego.

Frente a tudo isso, vemos nossa Atena, desbravando cidades e instituições, com um propósito maior, consequência da coragem de romper com o estabelecido, no encontro com verdades necessárias, dentro e fora da gente.

Mas veja bem, como o prometido, não estou falando da pesquisadora, e sim, da pessoa que existe por trás, e que por ser quem é, conseguiu chegar onde chegou e fazer o que faz com tanta maestria.

Não se decidiu doutora. Fez-se doutora. E assim esperamos que continue, direcionada pelo seu mundo interior, a presentificar-se na vida, na academia ou onde quer que se encontre, afinal, apenas as almas realizadas em si podem fazer pesquisa de verdade.

 

Marlon Reikdal é psicólogo junguiano formado pela UFPR, especialista em psicologia analítica pela PUC-PR e Professor de especialização em Psicologia.


 

Referências

COCA, Adriana Pierre. Rastros de Telerrecriação em Cartografia Movente. São Paulo: Labrador, 2019.

COCA, Adriana Pierre. Telerrecreación: un modo crítico y creativo de pensar y producir televisión. São Paulo: Labrador, 2019. (Versão em espanhol do livro supracitado).

Ambos são e-books e podem ser comprados nos sites das melhores livrarias. Para saber quais e ter outras informações, acesse o site da Editora Labrador:  http://www.editoralabrador.com.br/