O turismo transmídia e os modos de ressignificar as cidades como textos da cultura

Por Adriana Coca e Rafael Pieroni  | 18 Set 2019

Esta breve reflexão lança uma inquietação que nasceu da busca por compreender como as cidades, como textos culturais, vêm sendo ressignificadas na prática do turismo transmídia.

Entendemos por turismo transmídia, aquele praticado pelo uso de plataformas digitais, pensado com uma experiência de transmidiação (JENKINS, 2008) porque é tecido a partir de mídias distintas (fotografia, vídeos, relatos escritos) se configurando, a nosso ver, como uma vivência que se expande a partir de olhares coletivos sobre as cidades/textos da cultura. Nosso foco se volta para experiências como a da artista britânica, Jacqui Kenny, que por sofrer de agorafobia, um distúrbio de ansiedade que a impede de viajar, conheceu diferentes lugares do mundo pelo googlemaps e registrou em álbuns de fotos/prints screen (Projeto Viajante Agorafóbica).

https://about.google/stories/agoraphobic-traveller/

E, também, aqueles grupos de viajantes específicos que trocam informações pela rede, como os amantes de determinados esportes, as pessoas que privilegiam o turismo religioso ou, como exemplo, o grupo fechado da rede social Facebook denominado Mulheres que viajam sozinhas, que conta com mais de 70 mil membros, um espaço virtual para infinitas discussões, que vão além da troca de informações basilares sobre os lugares que essas mulheres visitam.

Para Lotman (2004), as cidades são complexos textos da cultura, signos carregados de historicidade e com potencial para geração de novos sentidos, porque congregam em seu interior memórias advindas da sua arquitetura, gastronomia, natureza e que vão sendo recodificados ao longo do tempo. O conceito de texto para a semiótica da cultura é amplo, é entendido como um espaço semiótico em que linguagens variadas se interseccionam, se compactuam e se auto organizam.

Isso acontece porque cada texto cultural é regido, segundo Lotman (1999), por um mecanismo que contempla previsibilidades e imprevisibilidades. Para o autor, os órgãos do sentido reagem aos estímulos que, pela consciência, são percebidos como algo contínuo. Esse processo de percepção pode operar sobre o previsível e o imprevisível. A primeira percepção é aquela já esperada, que tende à estabilização; a segunda, oposta, leva à desestabilização e pode provocar a geração de novos sentidos na relação com determinado texto cultural. Levamos em conta que imprevisível é algo que não é regular em determinado sistema da cultura e, com isso em mente, acreditamos que alguns percursos do turismo transmídia podem operar pela via da imprevisibilidade.

Nessa reflexão, consideramos também a noção de territorialidade expandida, proposta por Irigaray (2018), o autor enfatiza que a cidade imersa em um ambiente transmídia pode funcionar como um hipertexto orgânico, capaz de transmuta-la, (re) visita-la e (re) descobri-la, ofertando ao visitante uma mobilidade difícil de ser alcançada em um ambiente físico conturbado, como as grandes metrópoles por exemplo.

Esse argumento parece se sintonizar com a noção de cultura de Lotman (1998), para ele a cultura assume, pelo menos, duas funções primordiais: a transmissão de informação e a geração de novos sentidos, que suspeitamos ser facilitada nos casos em que o território se expande pela via da transmidiação. Assim, partimos do pressuposto que, mais do que um modo rizomático de “turistar”, esses percursos digitais instauram novos modos de se relacionar com as cidades/textos da cultura, nos levando a locais, talvez, impensáveis de serem visitados e nos tornando flâneurs de cidades observadas e compartilhadas por outros viajantes.

 

Adriana Pierre Coca é pós-doutoranda da Universidade Fernando Pessoa, Porto, Portugal. Doutora em Comunicação e Informação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, Brasil. Autora dos livros: Cartografias da Teledramaturgia Brasileira e Telerrecreación: un modo crítico y creativo de se pensar y producir televisión, entre outros.

 

Rafael Pieroni, jornalista, graduado em Ciências Políticas pela Metropolitan University of London e com especialização em formação de professores de português para estrangeiros. Atualmente, é mestrando da Birkbeck University of London em Políticas de População, Migração e Ecologia, Londres, Reino Unido.