Órfãos da Terra e a sensível condição dos povos refugiados

Por Adriana Coca e Rafael Pieroni | 28 Jan 2020

Órfãos da Terra (TV Globo, 2019) é a primeira telenovela brasileira a conquistar o Prêmio Rose d’Or Awards.

Rose d’Or Awards é uma premiação suíça, que desde 1961 elege os melhores programas de televisão do mundo. O prêmio foi recebido em dezembro de 2019 pelas autoras da telenovela, Duca Rachid e Thelma Guedes, em Londres. Vale lembrar que, em 2014, a dupla já havia conquistado reconhecimento internacional pelo trabalho em Joia Rara (TV Globo, 2013/2014), telenovela vencedora do Emmy Awards daquele ano.

A premiação trouxe à tona o complexo e urgente tema dos povos refugiados, assunto tratado na novela. A trama conta a história de Laila (Julia Dalavia) e Jamil (Renato Góes), casal de nacionalidade e religião distintas, que se vê obrigado a abandonar a terra natal e se mudar para o Brasil. Laila foge com a família por conta da guerra na Síria, enquanto o libanês Jamil decide ir em busca do seu grande amor. Por trás da narrativa melodramática, um tema que deveria ser re(pensado) por todos, por todos os povos, como defende a escritora/roteirista Thelma Guedes: “(...) Duca e eu gostaríamos que todos nós pudéssemos colocar luz em histórias de um mundo com menos fronteiras restritas, com mais empatia, compaixão e amor, onde todo mundo pode ser um filho ou filha da nossa real nação: o planeta terra.”[1].

Somos fãs das telenovelas dessa dupla, com certeza por causa da sintonia com os temas discutidos e, claro, pela qualidade das histórias contadas. Mas, desta vez, algo nos aproximou de modo mais sensível às emoções da ficção. Talvez, por estarmos morando fora do Brasil e lidar, de modo bem mais tênue que um refugiado, com as adversidades de uma cultura distinta da nossa, na condição de imigrante. Provavelmente, também, por conviver no dia-a-dia com pessoas mais próximas a essa realidade, a condição de refúgio, algo que estando no Brasil nos parece às vezes distante.

Mas essa talvez seja uma percepção irreal. O Brasil é um país construído por ondas migratórias. Além da própria história da colonização massivamente portuguesa, o país viveu uma explosão no número de imigrantes principalmente entre o final do século XIX e início do século XX baseado em uma política de governo voltada inicialmente para a substituição da mão de obra escrava e, consequentemente, para a fomentação do parque industrial brasileiro. Nas décadas subsequentes à Segunda Guerra Mundial, mesmo com a extinção dessa política, milhares de estrangeiros continuaram migrando para o Brasil. O perfil, no entanto, é distinto. Se majoritariamente recebíamos migrantes europeus, atualmente nativos de países da América Latina representam a grande maioria desses novos imigrantes. Entre 2012 e 2018, foram mais de 700 mil estrangeiros (e aqui incluímos refugiados) ingressos no país motivados por questões variadas, desde instabilidade econômica, abuso de direitos humanos, perseguição religiosa ou conflitos armados, nesse caso, como se enquadram as personagens da telenovela.

É por esses e outros tantos motivos que a telenovela Órfãos da Terra se constrói em diálogo com um tema social mundial e que, em alguns aspectos, nos parece ser tratado com mais densidade e clareza que a própria cobertura jornalística acerca do assunto (Baccega, 2003), como já alertava ser possível a saudosa Profª Maria Aparecida Baccega, que nos deixou no início deste ano. A narrativa foi capaz de unir à ficção uma leitura documentarizante sobre os povos refugiados, por exemplo, inserindo depoimentos de “personagens reais” e levantando questões com notícias atuais, como a chegada de milhares de imigrantes venezuelanos às cidades de fronteira no Norte do Brasil, por causa da crise política vivenciada no país vizinho.

Embora a guerra na Síria, considerada pela ONU como a maior crise humanitária da atualidade, tenha sido o ponto de partida, outras tantas nuances sobre a diversidade cultural foram tocadas pela história de Laila e Jamil. Um exemplo é  a questão religiosa. Em uma das cenas, o casal protagonista reza e pede para que Dalila (Alice Wegmann), a vilã da história que buscou incessantemente separar o casal protagonista, se recupere de um tiro. Cada um deles reza à sua maneira, Laila, católica, se dirige à Nossa Senhora, acompanhada do pequeno Raduan, filho do casal. Ao terminar, a criança se levanta, vai até o quarto e começa a imitar o movimento do pai, Jamil, que é muçulmano. O menino se ajoelha ao lado dele e ergue os braços várias vezes em direção ao alto. São narrativas imagéticas sutis, sem diálogos verbais, mas que demonstram respeito e tolerância à divergência religiosa, presente em tantos países.

Uma leitura mais detalhada sobre a novela você encontra no capítulo - O Olhar Documentarizante sobre a Crise dos Refugiados na Telenovela Brasileira Órfãos da Terra - que publicamos no livro Narrativas Imagéticas (Download através do link: http://www.riaeditorial.com/index.php/narrativas-imageticas/).

A reflexão do capítulo problematiza como Órfãos da Terra atualiza a noção de docudrama (Fuenzalida, 2008) e leitura documentarizante (Odin, 1984; 2012), discutindo aspectos da narrativa que transitam pela seara documental, como os testemunhos de refugiados reais incorporados à história e cenas pontuais que ultrapassam uma mera inspiração em fatos reais, como um dos acontecimentos mais emblemáticos da guerra na Síria, a morte de Aylan Kurdi, menino de 03 anos de idade, que foi encontrado sem vida em uma praia na Turquia, após o barco em que viajava com a família naufragar no Mar Mediterrâneo. A imagem registrada por uma fotógrafa turca viralizou pelas redes sociais e inspirou uma das cenas produzidas na telenovela.

Conforme explica Odin (1984; 2012), algumas produções audiovisuais são capazes de fazer com que o “leitor” construa a imagem do enunciador, pressupondo sua realidade, que é o que defendemos que acontece em vários momentos da história ficcional observada. Pois, acreditamos que Órfãos da Terra propõe uma atualização ao modo de contar histórias de ficção seriada no formato telenovela, no que tange a hibridação entre o texto documental e o ficcional, fazendo alusões e citações diretas a fatos reais. Um modo salutar e sensível de fazer com que a ficção desperte a reflexão sobre o real, especialmente sobre uma questão tão complexa e inadiável.

 

Referências

Baccega, M. A. (2003). Narrativa ficcional de televisão: encontro com os temas sociais (pp. 7-16). Revista Comunicação & Educação, São Paulo.

COCA, A. P.; CORSI, J. R. P. (2019). O olhar documentarizante sobre a crise dos refugiados na telenovela brasileira Órfãos da Terra (pp. 476-500). In: Suing, A.; Carvajal, A.; Sedeño, A.; Barcellos, J.; Rivera, J.; Morais, O.; Irisarri P.; Sarzi, R.; Castro, S.; Kneipp, A. (orgs.). Narrativas Imagéticas. 1ed. Aveiro: Ria Editorial.

Fuenzalida,V. (2008). O docudrama televisivo (pp. 159-172). Revista Matrizes. Ano 2, n.1, São Paulo.

Odin, R. (1984). Film documentaire, lecture documentarisante (pp. 263-278). In: ODIN, R.; LYANT, J. C. (eds.). Cinemas et realités. Saint-Etienne: Université de Saint-Etienne.

_______ (2012). Filme documentário, leitura documentarizante (pp. 10-30). Revista Significação. Ano 39, número 37.


[1] Informações disponíveis em: < https://gshow.globo.com/novelas/orfaos-da-terra/noticia/orfaos-da-terra-ganha-premio-de-melhor-telenovela-no-rose-dor-awards.ghtml> Acesso em: 24 jan. 2020, 08h.