RTP Lab e as reconfigurações da ficção em série

Por Adriana Coca | 29 Jan 2020

O RTP Lab é um laboratório que formula experiências em relação ao formato e a distribuição de conteúdos de humor e de ficção seriada em multiplataformas.

O RTP Lab é um laboratório que formula experiências em relação ao formato e a distribuição de conteúdos de humor e de ficção seriada em multiplataformas.

Até agora (janeiro de 2020), treze webséries foram produzidas pelo projeto institucional RTP Lab, “(...) um laboratório criativo e experimental, com novas formas de produção de conteúdos, pensadas numa lógica multiplataformas.”[1]. Como o próprio nome diz, a iniciativa nasceu no seio da RTP (Rádio e Televisão de Portugal), serviço público de mídia, e visa a inovação voltada para a produção de ficção seriada e de conteúdos de humor para o público jovem.

A primeira experiência foi em 2017 e selecionou quatro webséries, a partir de uma consulta pública, aberta a toda gente, que privilegiou roteiros de ficção, pensados para ambientes digitais e que, de certo modo, oferecessem novas possibilidades de contar histórias.

Os primeiros roteiros selecionados e produzidos foram: Amnésia; #CasaDoCais; Subsolo e Appaixonados, as webséries foram disponibilizadas no Youtube, mídias sociais e/ou via aplicativos/aplicações[2].

A websérie #CasaDoCais, que já teve a segunda temporada disponibilizada, é uma comédia que conta a vivência e os conflitos de cinco jovens excêntricos que dividem a mesma casa, em Lisboa. Temas como: o consumo de álcool e drogas, o sexo e a procura do primeiro emprego são abordados na trama, que é a segunda produção do projeto RTP Lab. Em seguida, foi produzida a websérie Subsolo, que narra a história de cinco jovens de uma mesma geração, nascidos após os anos 1990, que buscam corresponder à sociedade em que vivem e está submersa em uma Lisboa marginal, ao mesmo tempo vão sobrevivendo e descobrindo a si próprios.

As temáticas já denunciam qual o espectador que se pretende fisgar que é, sobretudo, os mais novos, mas além disso, a linguagem técnica e os modos de distribuição/acesso também estão sendo pensados e experimentados para atrair esses jovens nascidos na cultura digital.

Vamos falar um pouco das outras duas narrativas que foram produzidas nessa primeira leva, essas me parecem trazem aspectos mais flagrantes de mudanças, as webséries: Amnésia e Appaixonados.

Amnésia conta a história de Joana, uma blogueira que decide virar escritora e no dia do lançamento do seu primeiro livro acorda com o namorado morto ao seu lado. Ela é presa para averiguações e diz não se lembrar de nada, nada do que se passou no último ano, quando conheceu o rapaz assassinado. Ao passo que a investigadora do caso tenta entender o que aconteceu, uma conta misteriosa no instagran, a #joanalivre, começa a disparar vídeos e fotos do relacionamento do casal. O enquadramento da narrativa segue a estética instagrável, o que não é habitual na televisão e, além dessa, outra ruptura de sentidos se fez presente, o fato de espectador poder acompanhar essa história via instagran e sentir, de alguma maneira, a efemeridade de uma narrativa nessa mídia social. O crime acaba por ser desvendado exatamente por causa de uma observação atenta do que estava sendo publicado no instagran. A trama foi narrada, portanto, em 10 episódios e 25 instastories.

Appaixonados narra em 12 episódios a tentativa de Ana, uma professora de 32, que desfez um namoro de 10 anos e, depois de um tempo, resolveu entrar em um aplicativo/aplicação de relacionamentos, o appaixonados. A cada semana, o público podia escolher o pretende de Ana para o próximo encontro, via aplicativo/aplicação. Entre os pretendentes, perfis dos mais diversos. A websérie conquistou o prêmio - Prix Itália -, na categoria Web Entertainment, em 2018, essa que é uma importante competição do mercado de radiodifusão e internet.

Pela breve descrição das webséries já fica evidente alguns aspectos sinalizadores de reconfiguração da linguagem das narrativas ficcionais em série, principalmente, se compararmos às narrativas da TV aberta (free-to-air) e generalista. A principal irregularidade observada é a relação estabelecida com as plataformas digitais, pois, não é apenas uma expansão da história que se completa em outra mídia, o que ocorreu em ambos os exemplos foi uma interatividade.

A iniciativa me parece salutar, se as pensarmos como caminhos de sobrevida das narrativas de ficção para além do dispositivo convencional da televisão, o foco em temáticas às vezes tratadas com displicência na TV, também é um alento. Quando comparo os aspectos técnicos e o desenvolvimento de roteiro, tudo soa, ainda, um pouco amador, sinto falta de mais cenas externas, de maior profundidade na construção das personagens, por exemplo, ainda que saiba que o tempo dessas narrativas respeita um ritmo que não é o de uma narrativa televisual. Contudo, não podemos esquecer que esses trabalhos, por enquanto, são experiências em busca de novas formas de narrar, não há uma linguagem própria, bem definida, já codificada. E, por tudo isso, o projeto RTPLab se reveste de imprevisibildidades que apontam novos percursos audiovisuais que vêm surgindo com a digitalização da vida.

[1] Informação disponível em: < http://media.rtp.pt/rtplab/o-que-e/ >. Acesso em 02 jan. de 2020, 14h46.

[2] Todas as narrativas podem ser acompanhadas através do link do RTPLab: http://media.rtp.pt/rtplab/projetos/