A longevidade da teledramaturgia brasileira no Canal Globo, em Portugal

Por Adriana Coca | 09 Fev 2020

Quem mora ou viaja para Portugal tem a oportunidade de assistir a um canal dedicado exclusivamente à teledramaturgia da TV Globo.

A rede Globo tem dois canais em terras além-mar, um deles que só transmite teledramaturgia, o Canal Globo, disponível em todas as operadoras nacionais e outro, o Globo Internacional (Globo Now), que contempla uma variedade de programas da emissora e é um canal pago.

O Canal Globo é, antes de tudo, um espaço destinado a preservação da memória teledramatúrgica da TV Globo, consequentemente, da teledramaturgia brasileira, já que esta é a emissora hegemônica na área, desde sempre a antena de TV aberta que mais produz e exibe ficção seriada no Brasil.

Além da exibição de telenovelas e séries, alguns realitys ocupam a faixa de programação aos domingos no início da noite, como o reality gastronômico Mestre do Sabor, que foi exibido às quintas no Brasil e, na mesma semana, ia ao ar aos domingos, em Portugal. Há um horário na grelha (grade) de programação destinado também ao cinema nacional, sábados à noite.

Um programa que merece destaque é o Sem cortes, apresentado pelo ator luso-brasileiro Ricardo Pereira, que há anos se divide entre atuar em produções do Brasil e de Portugal. No ano passado, ele protagonizou a série - De alma e coração -, na SIC (Sociedade Independente de Comunicação), ao mesmo tempo em que ocupava a tela em outras produções do Canal Globo.

O Sem cortes é uma espécie de Vídeo show à portuguesa, mostra os bastidores das tramas, entrevistas com atores e diretores no quadro Bio, além de conversar com personalidades brasileiras em visita à terrinha. Outros quadros ligados à teleficção completam o roteiro do programa, que está em sua segunda temporada, como os Quizz sobre novelas e o quadro Tempero de Novela, no qual um chefe de cozinha prepara a sua versão para algum prato que teve destaque nas tramas ficcionais, como fez o chefe português Pedro Bastos, de Lisboa, que recriou o famoso bolinho de chuva da cozinha da Tia Anastácia do Sítio do Pica-pau amarelo, ambos os quadros são apresentados pelo ator e apresentador Max Fercondini e gravados em Portugal. Sem cortes vai ao ar aos sábados, 8h30 da noite.

A programação não respeita uma diacronia, não é exibida em sintonia com o que está no ar na TV Globo no Brasil, até porque, há ainda a parceria entre a TV Globo e a emissora privada portuguesa SIC, que também transmite telenovelas brasileiras. Atualmente, duas novelas estão sendo exibidas pela SIC: Amor à vida (TV Globo/2013) e A dona do pedação (TV Globo/2019), que recém se despediu das telas, no Brasil.

O que acontece no Canal Globo são sobreposições de épocas distintas, vemos os mesmos atores com idades bem diferentes atuando em novelas que são transmitidas uma seguida da outra, o que exige certo discernimento por parte de quem assiste. Há a exibição de telenovelas atuais como Éramos Seis, que está sendo acompanhada pelos brasileiros, com uma diferença de apenas duas semanas daqui e, ainda, a atual temporada da novela juvenil Malhação – Toda forma de amar. Ao passo que, outras narrativas, já exibidas no Brasil, estão no ar em Portugal pela primeira vez, como: A vida da gente (TV Globo/2011) e A regra do jogo (TV Globo/ 2015), que compõem a programação com produções mais antigas como a temporada de 2008 de Malhação e telenovelas das décadas de 1990 e 2000, como a movimentada Quatro por Quatro (TV Globo/1994/1995) e a mansa Estrela-guia (TV Globo/2001). E mais, um horário é reservado ao Vale a pena ver de novo, por volta das 22h, que nesse momento transmite O clone (TV Globo/2001/2002), o que me faz crer que essa telenovela já foi transmitida em Portugal, ao contrário das outras que estão sendo exibidas.

Depois de contar um pouco como se constrói essa programação macro, gostaria de mencionar os quadros colocados entre as telenovelas, que funcionam como um acionador da memória teledramatúrgica por outros vieses. Há uma variedade de interprogramas, alguns que foram apenas transpostos de programas já conhecidos como é o caso do Memória Nacional, que traça o perfil de algum ator ou atriz de renome e já fazia parte do saudoso Vídeo show. Além do Memória Nacional, outros ressuscitam o vasto arquivo das tramas ficcionais da TV Globo, que são: Curiosidades da TV, que revela alguma informação de bastidor, que pode ser, por exemplo, a quantidade de bombons cenográficos (10 mil) produzida para a telenovela Chocolate com pimenta (TV Globo/2003/2004).

Em Retratos, apenas uma foto é exibida, mostrando, por exemplo, a preparação de determinada personagem em uma telenovela, como a da atriz Camila Pitanga sendo maquiada para viver Isabel, em – Lado a lado (TV Globo/2012/2013). Há os Quizz, que questionam o espectador sobre quem interpretou certo personagem em uma trama, nos fazendo relembrar de novelas que não estão ocupando naquele momento a programação. Em Destinos, (re) vemos cenas de uma novela e descobrimos um pouco da história do lugar em que a trama foi gravada, como as tradições da Grécia retratadas na telenovela Belíssima (TV Globo/2005/2006). Isso só para citar alguns desses quadros, que sem dúvida, são dinamizadores da memória coletiva da teledramaturgia brasileira.

Nessa via, a proposta do Canal Globo se assemelha ao brasileiro Canal Viva, que também funciona como um “arquivo aberto” das narrativas ficcionais da TV Globo. Isso é possível porque a teleficção brasileira tem vida longa nas TVs portuguesas, foi uma parceria que começou no fim dos anos 1970, quando foi exibida a primeira telenovela brasileira em Portugal, Gabriela Cravo e Canela (TV Globo/1977), que foi um enorme sucesso; esse enlace se fortaleceu nos anos 1990 e, atualmente, além do Canal Globo, como já dito, a emissora privada SIC e a pública, RTP (Rádio e Televisão de Portugal), também exibe conteúdo ficcional da emissora carioca.

Além disso, não podemos esquecer que hoje mais de 150 mil brasileiros vivem em Portugal, o país europeu registrou esse número recorde de brasileiros residentes em 2019.

Outra iniciativa do Canal Globo, que também é realizada pelo Canal Viva, indica a tentativa de atender aos novos tempos, é a maratona de telenovelas realizada nos fins de semana. Algumas tramas vão ao ar de segunda a sábado e, no domingo, todos os capítulos são retransmitidos em sequência, promovendo o fenômeno binge-watching. Importa lembrar que o formato telenovela, especialmente, tem sua significância na memória coletiva dos brasileiros, é possível recuperar do seu eixo diacrônico “dialetos da memória” (Lotman, 1996).

Para Lotman (1996), os “dialetos da memória” se configuram a partir da organização interna dada por uma coletividade que, nesse caso, constituiria o mundo das novelas. Esses dialetos fazem surgir semânticas locais e se pensarmos no exemplo da telenovela brasileira, apesar da circulação global (exportação) e de temáticas que afetam diversos tipos de públicos, a telenovela configurou um modo próprio de construção de narrativas e de organização de seus textos.

Nessa perspectiva, os dialetos da novela brasileira se configuram por meio da pergunta “Quem matou Odete Roitman?” (Instituída pela novela Vale Tudo (TV Globo/1988/1989), bem como pelas meias de lurex listradas e coloridas usadas com sandália por Julia Mattos (Protagonista interpretada por Sônia Braga na telenovela Dancing’Days (TV Globo/1978/ 1979). Mas também se encontra no chacoalhar de pulso do sinhozinho Malta (Personagem principal de Roque Santeiro (TV Globo/1985/1986) ou na explosão da Dona Redonda (Saramandaia (TV Globo/1976). Perguntas, usos, gestos como esses sequer precisam de referência ao nome da telenovela, isso pouco interessa, porque já foram incorporados ao dialeto da telenovela e, por consequência, à cultura midiática brasileira (Rosário; Coca, 2015). E, quem sabe, alguns também já façam parte da cultura portuguesa.

LOTMAN, Iuri. Cultura e explosão. Barcelona: Editorial Gedisa, 2000.

____________. Semiosfera I – Semiótica de la cultura y del texto. Madrid: Cátedra, 1996.

ROSARIO, Nísia M.; COCA, Adriana P. Os rastros de memória e a dinâmica da criação na teledramaturgia brasileira. In Texto (UFRGS. Online), v. 34, p. 116-131, 2015.