Revisitando o Centro Português de Fotografia

Por Adriana Coca | 05 mar 2020


O Centro Português de Fotografia, no Porto, é um lugar que conta muitas histórias, suas paredes e salas traduzem memórias de diferentes épocas.

 


O prédio por si só é um texto da cultura impregnado de memórias, individuais e coletivas. Começou a ser construído em 1767 para acolher a Cadeia da Relação, a prisão da cidade, e sedia o museu desde 1997.

 


Está localizado no centro histórico, entre a famosa Torre dos Clérigos e a Palácio da Justiça (Tribunal da Relação do Porto).

 


Diante de si o Largo Amor de Perdição, onde vemos a estátua de mármore “Amores de Camilo” do artista Francisco Simões.

 


Atravessando a rua nos deparamos com os Jardins da Cordoaria e as extraordinárias esculturas de bronzes dos “Treze que riem” ou “Treze a rir uns dos outros”, um presente dado pelo artista espanhol Juan Muñoz à cidade do Porto, em 2001, ano em que OPorto (como dizem os espanhóis) foi escolhida como a capital europeia da cultura.

 


Desviando um pouco o olhar, percebemos que ali também há uma igreja, Igreja das Almas de São José das Taipas, que parece meio escamoteada entre o palácio e a ruazinha (Travessa de São Bento), que nos leva até o Mosteiro de São Bento da Vitória. No dia em que a visitei, lá estava a imagem de Nossa Senhora de Fátima Peregrina, a imagem de Nossa Senhora do Rosário de Fátima, uma das muitas personificações de Nossa Senhora. Essa, como sabem, foi vista em Portugal pelos três pastorinhos: Francisco, Jacinta e Lúcia. Até a minha juventude, eu morei em uma rua bem atrás de uma Igreja de Nossa de Fátima, na Zona Leste de São Paulo, onde até hoje vive a minha família e onde moram muitos portugueses. Por isso, sempre me emociono com a imagem de Nossa Senhora de Fátima.

 


Todos esses ângulos nos mostram que os textos culturais que cercam o Centro Português de Fotografia rendem muitas informações históricas. Mas, este post não é para trazê-las à tona e, menos ainda, para dar informações turísticas sobre o local. A minha inspiração para esse texto, dessa vez, foi mais afetiva. Então, resolvi fazer um post com mais imagens e menos reflexões teóricas. Afinal, esse é um espaço dedicado as imagens, não as imagens em movimento que estudo, mas imagens provocadoras, que nos inquietam e, também, desencadeiam movimento.


É também um lugar que de imediato me recorda dois amigos queridos: o André, que foi quem me falou do museu com entusiasmo. Por sermos muitos parecidos, eu sabia que também ia gostar. E o Roberto, que pesquisa e dá aulas de fotografia. O Roberto é inteligente, criativo, apaixonante, mas... assim como as histórias do centro precisa ser resgatado pela memória para não ser perdido, enclausurado no tempo, já que nunca se faz presente.


Além de me fazer sentir saudade, esse ambiente repleto de memórias também me comove pelas histórias das pessoas que passaram por ali, especialmente, das mulheres que ocuparam aquelas celas. No segundo piso há a Sala da Memória / Sala das Mulheres, um acervo importante que sinaliza a importância da fotografia para o sistema prisional. Confesso que não é meu espaço preferido, sinto certa repulsa, ainda que compreenda a dimensão histórica desses registros. Sempre penso que se tivesse vivido na época em que ali funcionava a cadeia, provavelmente, teria sido uma daquelas mulheres. Mas, seguimos para o terceiro piso. No meio do caminho, a biblioteca.

 


O terceiro piso acolhe o Núcleo Museológico e uma exposição permanente que exibe dezenas de câmeras fotográficas, que traçam uma linha do tempo da fotografia e me fazem revirar um baú de recordações Vejo aquelas câmeras embutidas em caixas de madeira e me lembro que meu pai tinha (ainda tem) uma dessas. Todas as minhas fotos de criança foram registradas em uma Duaflex II da Kodak, fabricada nos anos 1950.

 




Quando passo pela câmara escura (pelo menos parece uma), penso em como explicamos isso em aula. Automaticamente lembro do Ricardo, amigo maravilhoso, que me ensinou tanto sobre fotografia e sobre a vida. Somos muito diferentes. Com ele, aprendi a ser mais reservada, a pensar (mesmo que por alguns segundos) antes de dizer o que estou sentindo, a ser um tantinho ponderada, a observar primeiro e, acredito, que ele tenha aprendido comigo a ser uma pessoa menos ranzinza, um pouco mais relaxada, sorrir mais, ser mais afetuoso, inclusive, com os seus alunos e a compartilhar sentimentos. Isso é amizade.


A sala com os utensílios de laboratório me carrega de volta ao início dos anos 1990, quando cheguei à universidade. A disciplina de fotografia foi logo no primeiro semestre, com o Prof. Teixeira, que deve ter morrido, porque fumava o tempo todo, passava mais tempo fumando do lado de fora do laboratório do que dentro dele dando aulas. Não me lembro de ter aprendido muito sobre imagens nessa fase. Por sorte (e eu sou uma menina de sorte, uma vez o Silvio Santos me disse isso e eu acreditei), eu tinha amigos que entendiam mais de fotografia do que eu, passei na disciplina. Mas… deixando as recordações de lado e voltando ao Centro Português de Fotografia... Quero contar que não pagamos nada para visitá-lo, é só chegar e entrar. Também deixo o convite para seguirem até o terceiro piso, as escadas inspiram um certo desânimo, mas é lá através das janelas do Núcleo Museológico, onde podemos observar do alto a Sé do Porto, um trechinho do Douro (Rio Douro)... e outras tantas histórias.


Depois de percorrer esse labirinto pessoal de memórias, já me encaminhando para a saída me deparei com uma cena curiosa, um senhor fazendo uma selfie com o celular tendo como fundo uma câmera do fim do século XIX, imensa, de madeira. O que me fez crer que esse é mesmo um lugar que sobrepõe tempos.