A explosão do coronavírus e a reinvenção do mundo

Por Adriana Coca | 05 mai 2020

Um traço característico da explosão cultural é a vivência dessa experiência como algo único na história da humanidade, um momento incomparável, afirma Lotman (Lotman, 2013).

Em uma situação inédita e inesperada na vida do planeta é quase impossível não refletir e, minimamente, tentar racionalizar e buscar compreender o que está acontecendo. Como pesquisadora que discorre sobre diferentes textos da cultura, logo, me vi fazendo relações teóricas acerca das mudanças em nossas vidas nesse conturbado contexto de pandemia. Observei a atuação midiática, as reações nas redes sociais, repensei os rumos da educação crítica no Brasil e me vi tecendo relatos pessoais aos amigos, já que estou “isolada” em um país estrangeiro.

Nesse espaço, eu quero destacar alguns eventos pontuais que me afetaram e me direcionaram para o futuro. Esses eventos estão vinculados com uma pergunta que norteia os telejornais diários - Quando vamos voltar a “normalidade”? - sempre que ouço essa questão respondo a mim mesma: Nunca mais. Será que ainda não perceberam? Há quem fale em um “novo normal” e, ainda, em uma “normalidade possível”, o que soa mais assertivo.

Pois bem, Lotman (2013) cunhou o conceito de explosão cultural ou semiótica para pensar o previsível e o imprevisível em momentos de mudança social. O universo dos sentidos, segundo o autor, perpassa a percepção dos órgãos dos sentidos, que, “normalmente” se conscientizam/percebem algo como contínuo (regularidade/previsibilidade), quando uma percepção é aquela já esperada; o contrário nos desestabiliza, porque a percepção sentida é inesperada (irregularidade/ruptura de sentidos/imprevisibilidade), nesse caso a “surpresa” pode desencadear a geração de nova informação/novos sentidos. Quando essa descontinuidade/imprevisibilidade é intensa ocorre a explosão cultural ou semiótica. Somos, então, obrigados a rever os códigos culturais e há uma reconfiguração dos sentidos. É exatamente o que parece que está acontecendo nesse momento no mundo. Estamos no centro da pandemia/explosão cultural, causada por um vírus que teria surgido em dezembro de 2019, na cidade chinesa de Wuhan.

As transmutações nos modos de se comportar, relacionar e estar em público se instauraram com rapidez e devem continuar sendo necessárias por um longo tempo. Outro dia ouvi um médico ou autoridade da China orientar sobre o uso das máscaras sociais, uma pauta que era polêmica, esse senhor disse, mais ou menos, isso: “O não uso da máscara nesse momento não é uma questão cultural, é burrice.”. Eu que acompanho todos os dias as coletivas das autoridades de saúde de Portugal e vi, aos poucos, as mudanças nas recomendações sobre o uso das máscaras, concordei imediatamente. Dias atrás, um amigo confessou que foi às compras de máscara e se sentiu um ET (na cidade de Goiânia, no Brasil). Hoje, uma ida ao supermercado sem máscara é a irregularidade e não o contrário. A máscara se tornou um acessório de proteção imprescindível e não é só na China. A mudança foi imposta de modo imperioso e os códigos precisaram se reordenar. Esse é um exemplo singelo, perto das outras tantas ações que serão alteradas no nosso dia-a-dia.

A mudança não está por vir, está acontecendo, estamos no auge da inflexão, hora da decisão se assimilamos as alterações ou rechaçamos. Penso que quem resiste em acreditar no sentido óbvio, que nos chegou como um feixe de imprevisibilidade e nos cobra mudanças de atitude incorre em erros fatais, como bem demostram aquelas pessoas que um dia fazem postagens nas redes sociais desacreditando a pandemia e dias depois morrem, após testarem positivo à doença.

Todos foram atingidos de algum modo e sofreram mudanças em suas rotinas, evidente que devemos considerar as relações, lugares que vivem, idade, condições sociais e financeiras e a sintonia com a cultura em que estão submergidos. Ainda assim, nesse instante, dados dão conta que mais da metade da população mundial está em isolamento social. E enquanto isso... professores, executivos, profissionais do turismo e da saúde... todos nós, nos reinventamos.

Me parece paradoxal pensar que os impactos existem de modo distinto para cada um e para cada região do mundo e, ao mesmo tempo, toda a humanidade está vulnerável a um vírus tão “democrático” quanto o Covid-19. Por isso, é impossível não perceber nesse contexto que a minha atitude pessoal reflete na coletividade, no outro e no ambiente que nos rodeia. É só pensar nos numerosos exemplos de regeneração da natureza, a redução absurda nos índices de poluição das grandes cidades, os animais selvagens passeando pelas ruas vazias dos centros urbanos.

Há quem busque caminhos criativos em meio ao caos, apontando os novos sentidos para a vida, vi uma reportagem sobre uma indústria têxtil portuguesa que fazia camisetas/camisolas e cachecóis para torcedores/adeptos de futebol e que, agora, costura máscaras e roupas de proteção e fornece para vários hospitais. Me lembro da missa rezada por um padre em cima de um telhado na cidade italiana de Nápoles. Sem contar as inúmeras alternativas apoiadas pela digitalização do mundo. Isso é se reinventar. Sinto pelas populações mais vulneráveis, essas, sim, sentem as consequências de modo devastador e não é sempre que caminhos alternativos podem ser seguidos.

Lotman (1996) defende que há um espaço semiótico que ele denomina semiosfera, dimensão abstrata que acolhe os encontros entre as diferentes culturas. É nesse “espaço” que as nossas posturas devem ser reconfiguradas e isso faz parte das atualizações dos sistemas culturais. Importa percebermos que nesse cenário impreciso, alguns textos/códigos culturais que conhecemos estão se reestruturando e, consequentemente, reconfigurando a realidade. Essa reconstrução passa pela função criativa de novos textos culturais em um movimento ininterrupto que, por vezes, acontece mais lentamente (processo gradual), quando estamos imersos na “normalidade” e, por outras, de maneira avassaladora, que são os momentos de explosão cultural, como o tempo que vivemos.

 Referências

Lotman, Y.. Cultura y explosión. Lo previsible y lo imprevisible en los procesos de cambio social. 2ª. ed.. Barcelona: Gedisa, 2013.

______. Semiosfera I - semiótica de la cultura e del texto. Madrid: Cátedra, 1996.