Her: um futuro que se aproxima

Por Adriana Pierre Coca | 12 MAR 2014

Her foi indicado ao Oscar 2014 em cinco categorias, entre elas, melhor filme. Como sabemos, não levou essa estatueta, que ficou com o aclamado 12 anos de escravidão. Mas garantiu o primeiro Oscar ao cineasta americano Spike Jonze, pelo melhor roteiro original. Jonze escreveu e dirigiu Her que conta a história de um casal que se conhece, se apaixona e tem dificuldades para permanecer junto. Uma narrativa banal que trata, sobretudo, das relações humanas e dos seus nós mal desatados com muita sensibilidade.

Mas, nesse caso, os sentimentos universais como o amor e a amizade surgem do enlace entre homens e máquinas. Em Her, Theodore (Joaquin Phoenix) é um homem recém separado, que escreve cartas em nome de outras pessoas e vive uma paixão com um sistema operacional, que a personagem carrega no bolso para todos os lugares – sua paixão habita seu computador e também o seu celular. Dele, ou melhor, dela, Samantha, (Scarlett Johansson) Theodore tem contato apenas por meio da voz, que é emitida através desses potenciais corpos eletrônicos.

Imagem do filme – Her – tirada a partir do vídeo disponível em: http://mw.youtube.com/watch?v=pw8e5AU4Qi4 - Acesso em: 04/03/2014 às 15h58

Jonze tem um histórico que contempla filmes criativos, para alguns críticos, surreais. Dirigiu os longa-metragens Quero ser John Malkovich (1999) e Adaptação (2002) e o belíssimo média-metragem Estou aqui (2010), vencedor de vários prêmios pelo mundo. Esse filme narra o namoro de dois robôs e também coloca em discussão as relações entre homem e máquina, na história o ser humano é apenas um coadjuvante.

Imagem do filme – Estou aqui – tirada a partir do vídeo disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=dy5MufiKTX0 - Acesso em: 04/03/2014 às 21h5

Her nos suscita muitas questões, considero a principal inquietação a preocupação com as relações entre os mundos: virtual e real desencadeadas na contemporaneidade. Será que estamos tão distantes do universo retratado no filme? E em que medida já vivenciamos certa dependência tecnológica como vista no longa-metragem?

O que é fato, como nos diz Santella e aparece representado na história de Theodore e Samantha, é que já vivemos a era da comunicação ubiqua. A ubiquidade ou pervasividade “destaca a coincidência entre deslocamento e comunicação” (2010, p. 17) e permite essa nova realidade, num contexto cultural que valoriza sobremaneira a mobilidade. A ubiquidade ou pervasividade alude à ideia de conteúdos disponíveis para serem acessados em qualquer lugar, em casa, em locais públicos e na palma das mãos. Santaella acredita que os celulares “deixarão definitivamente de ser um mero telefone móvel para assumir o papel de principal conector do indivíduo com a sociedade.” (2013, p. 54).

A autora lembra que a Web 3.0 vive nesse momento sua infância e citando Lafuente (2011), sinaliza que já caminhamos para um tipo de tecnologia (talvez possamos dizer, materializada nos aplicativos para celulares) que, assim como a personagem Samantha, irá nos ajudar a reorganizar dados visando atender as necessidades de cada usuário. Ou seja, cada um passa a ter uma experiência personalizada, como por exemplo, o fato de Samantha avaliar os e-mails de Theodore e descartar o que não interessa, ou decidir sozinha enviar um e-mail para um editor para publicação das melhores cartas escritas por ele, textos que também foram selecionados por Samantha.

Esse tipo de experiência aparece no texto de Santaella como “intuitiva”, assim mesmo entre aspas e exatamente como o sistema operacional do filme é vendido. Na cena em que Theodore vê a publicidade do sistema operacional, a narração diz que se trata de um sistema operacional intuitivo.

Sem nos adentramos nas várias questões teóricas embutidas nessas citações, vale destacar que assim como os apontamentos de Santaella, o filme traz à tona ou “lança luzes sobre as transmutações do humano face à sua mescla com os novos seres sencientes que estão emergindo.” (2013, p.38).

REFERÊNCIAS

SANTAELLA, Lúcia. A ecologia pluralista da comunicação: conectividade, mobilidade, ubiquidade. São Paulo: Paulus, 2010._________________. Comunicação ubíqua – repercussões na cultura e na educação. São Paulo: Paulus, 2013.

SOBRE A PESQUISA

O site telerrecriação trata da pesquisa da Profa. Dra. Adriana Pierre Coca que investiga os aspectos teóricos e metodológicos das rupturas e reconfigurações de sentidos na teledramaturgia brasileira.

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Adriana Pierre Coca
E-mail: pierrecoca@hotmail.com